Certa vez, levei minha filha de dois anos a uma pracinha que ficava perto de casa. Fomos com muito cuidado, e fiquei feliz ao ver que ali havia algumas crianças brincando tranquilamente, acompanhadas de seus pais.
No meio da pracinha, havia um escorregador que minha filha achou muito divertido. Subia as escadas e descia feliz, alternando as descidas com outras crianças da mesma idade. Em determinado momento, uma dessas crianças viu uma lagarta e disse:
— Papai, olha! Uma lagarta bem grande! — disse a menina.
— Filha, olha lá quem está vindo ali! — disse o pai, fazendo com que a criança olhasse para o outro lado, enquanto matava a lagarta, certamente temendo que ela queimasse a criança.
— Ué, papai, cadê a lagarta que estava aqui? — perguntou a criança, assim que voltou seu olhar.
— Ah, filha, a lagarta virou borboleta. — respondeu o pai.
Minha filha viu a cena e, em sua fisionomia, observei que não estava entendendo nada. Como a lagarta tinha virado borboleta? Ele não tinha matado a lagarta?
Por ser muito pequena, ela logo se entreteve com a brincadeira, mas aquela frase me incomodou: “a lagarta virou borboleta”.
Sabemos que não é fácil dizer algumas verdades às crianças, pois nem sempre elas conseguem compreendê-las, uma vez que sua razão ainda está em formação. Entretanto, pareceu-me que aquele pai só queria seguir adiante com o seu dia, sem dar maiores explicações sobre o ocorrido. Foi o caminho mais fácil, mas não o mais adequado, já que aquele argumento não correspondia à verdade e poderia fazer surgir na mente da criança a ideia de que coisas sem lógica simplesmente acontecem.
A frase continuou me incomodando… “A lagarta virou borboleta”.
As reflexões me fizeram recordar o que vivo, com certa frequência, com os meus alunos. Como dou aulas de escrita, às vezes recebo reclamações de que não estão conseguindo escrever um texto de um dia para o outro. A “lagarta” – ou seja, a ideia que estava na mente do aluno – ainda não virou “borboleta” – o texto finalizado.
Tudo tem seu tempo
Essa experiência me fez refletir sobre o que estou aprendendo com a Logosofia: tudo na vida segue um processo e demanda tempo para acontecer. Lagartas não viram borboletas em dois segundos. Na vida das crianças (e também na dos adultos), considerar que isso seria possível é contrário à Lei Universal da Lógica — e, quando se contrariam as leis, há consequências.
Quando nós, adultos, ficamos impacientes diante de algo que demanda tempo, não estamos agindo de acordo com a lógica. Da mesma forma, quando ensinamos às crianças que coisas ilógicas podem acontecer, como uma lagarta virar borboleta em um segundo, estaremos criando imagens que, mais tarde, poderão se manifestar em incompreensões ou sofrimentos.
Reconheci que as tarefas dos meus alunos demandam mais tempo, mais prazo, para que sejam bem realizadas. Assim, pude auxiliá-los a entenderem a importância de planejarem cada etapa do processo de execução da tarefa, para que, com paciência e empenho, chegassem à “fase da borboleta”.
Certamente, a última fase é muito bonita. Todos querem concluir uma etapa, finalizar um texto. Mas essa fase não poderá existir se, por uma decorrência lógica, as anteriores não existirem.
