Outro dia, enquanto levava meu filho para a escola, um belo gavião cruzou o céu bem à nossa frente. A ave deslizava majestosamente sobre as correntes de ar, como se desenhasse caminhos invisíveis no azul da manhã.
Encantado com a cena, ele perguntou:
— Mamãe, você gosta de pássaros?
Pensei por um instante e respondi:
— Não diria exatamente que gosto, mas os considero seres muito interessantes.
A resposta pareceu insuficiente para sua curiosidade, e a conversa continuou naturalmente.
— Pois eu gosto — disse ele. — Gosto de observar as cores dos pássaros e ouvir seus cantos.
Enquanto o escutava, percebi que aquele pequeno observador enxergava detalhes que muitas vezes passavam despercebidos ao meu olhar desatento; aquele olhar tocava a minha sensibilidade. A vida, às vezes, fala conosco através de vozes inesperadas.
Então, acrescentei:
— Sabe o que mais admiro nos pássaros, meu filho? O fato de poderem voar.
Mas, com a rapidez característica de uma mente infantil, ele prontamente manifestou:
— Nós também podemos voar, mamãe. De avião, de helicóptero…
Sorri diante da observação tão lógica quanto verdadeira.
— Concordo com você em parte — respondi. — Podemos voar nesses meios de transporte, mas é um voo passivo. Mesmo tendo sido criados por humanos, são as máquinas que nos sustentam no ar. Os pássaros, porém, voam com as próprias asas.
Fiz uma breve pausa e continuei:
— E nós também podemos desenvolver nossas próprias asas, ainda que invisíveis. Voamos quando aprendemos a pensar por nós mesmos. Voamos quando observamos a vida com atenção. Voamos quando sentimos com profundidade, quando ampliamos a compreensão e quando assumimos a direção consciente dos nossos atos.
Meu filho permaneceu em silêncio por alguns segundos, talvez tentando alcançar, com sua imaginação, aquelas asas que não se veem.
Enquanto seguíamos pela estrada, ocorreu-me que às vezes atravessamos a existência como passageiros, sendo conduzidos pelas circunstâncias, pelas opiniões alheias ou pelos impulsos do momento. E, em certas ocasiões, nossas limitações nos impedem de perceber que a maior liberdade concedida ao ser humano não está em percorrer grandes distâncias, mas em desenvolver a capacidade de governar a própria vida.
Os pássaros dependem de suas asas para cruzar os céus.
Talvez por isso a vida nos presenteie, vez ou outra, com um gavião riscando o céu numa manhã comum. Não apenas para que admiremos sua beleza, mas para que nos recordemos de uma verdade muitas vezes esquecida: todos nascemos com a possibilidade de voar, mas as asas interiores precisam ser cultivadas.
E essa é uma das mais belas tarefas da existência.
Os pássaros voam porque possuem asas. O ser humano voa quando aprende a usar a liberdade de pensar, sentir e conduzir conscientemente a própria vida.
