Texto de apresentação dos artigos
Sempre, em todos os tempos, o homem ansiou pela liberdade. Muito se lutou e até se morreu por ela, esse bem maior sem o qual a vida pareceria não ter sentido. Em especial, os jovens, por sua própria natureza desbravadora e de reconstrução do mundo em que vivem, buscam a liberdade como o ar que se respira.
Mas já paramos para pensar se a liberdade que tanto queremos existe de fato, independentemente do momento histórico em que cada parcela da humanidade vive? Será essa a forma mais concreta de liberdade: a de ir e vir, de protestar e de desbravar o mundo? Ou será que existe outra forma de liberdade, sem a qual esta que todos conhecemos não pode ser exercida e desfrutada?
Nestes artigos, os jovens Gregory Lisboa e Vanessa Soares, a partir de vivências simples e comuns a todos nós, mostram que a “primeira” liberdade – a mais real e sem a qual o homem não pode se dizer livre – é a liberdade interna. Trata-se de uma conquista alcançada em lutas silenciosas, mas tão reais e efetivas quanto as lutas armadas. Só então podemos afirmar, com plena convicção: “Sou livre!”
Vale a pena conferir!
O eleito
da vontade
Gregory Gomes Nogueira Lisboa – Rio de Janeiro/RJ
(O Governo da Própria Vida – Ensaios – 1ª edição – 2019 – págs. 24 a 27)
Depois de anos sob o jugo de uma terrível tirania, finalmente assumiu o poder o eleito da vontade. Fato é que, quando esta se empenha na realização de um propósito, não há obstáculo capaz de detê-la. Recém assumido seu posto e sem o conhecimento dos mecanismos que dispunha a seu favor, o eleito não demorou a enfrentar dificuldades para o cumprimento de sua missão. O antigo déspota ainda exercia forte influência sobre seu mundo. Não fosse a firmeza do propósito de mudar a realidade em que se encontrava, certamente teria cedido às resistências que colocavam em risco seu triunfo. Ele sabia que a liberdade não é mera prenda concedida, mas sim um direito que se conquista na prática constante do conhecimento e, por isso, não esmorece na luta.
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Essa passagem épica bem poderia ser a narração da trajetória de uma nação em busca de liberdade, mas a realidade é que tudo isso se passa dentro de mim. Vivo constantemente essa luta para assumir o domínio do meu mundo interno. Quantas vezes não me peguei agindo contra a minha vontade, submetido à tirania do pensamento: “O que vão pensar de mim?” ou ao medo de me expor ao ridículo? E foi contra um pensamento desses que vivi, anos atrás, uma das lutas mais marcantes…
Estava sem aulas na faculdade, devido a um período de greve. Ainda no início de minha graduação, não queria desperdiçar meu tempo de forma improdutiva. Conversei com um amigo que fazia pesquisas em um laboratório e lhe pedi que me apresentasse ao professor que o orientava, com o propósito de ingressar na equipe de um projeto.
Combinamos de nos encontrar na faculdade dias depois. Porém, quando eu já estava lá, ele descumpriu o acordo e não apareceu. Como já havia saído de casa, resolvi me apresentar ao professor por conta própria. Depois de procurar por pouco tempo, encontrei o laboratório que meu amigo havia indicado: uma enorme porta de metal azul, com uma campainha ao lado. Naquele momento, deparei-me com um tremendo obstáculo: a campainha!
Diante do intimidador botão, alguns pensamentos começaram a rondar minha mente de calouro: “Eu não vou apertar essa campainha!”, “Posso atrapalhar o trabalho de um estudante de mestrado ou até mesmo doutorado!” ou “Alguém deve estar ocupado e não vai me receber bem!”.
Sob a pressão de argumentos tão convincentes, cedi às exigências daqueles pensamentos… e desisti! Voltaria outro dia, com meu amigo presente ; assim seria bem mais fácil.
No caminho para o ponto de ônibus, parei para refletir sobre o que estava me impedindo de apertar a campainha. Não seria um pensamento de timidez² que estava bloqueando minha ação? Eu queria iniciar uma pesquisa, estava ali só para isso. Por que então estava me deixando levar por um pensamento e não agindo de acordo com a minha própria vontade? Nesse momento, tive a liberdade de escolher: voltar para casa, fracassando em meu objetivo, ou enfrentar a tirania da timidez e apertar a campainha? Frente a esse dilema, o eleito da minha vontade foi a decisão de cumprir meu propósito. Voltei ao laboratório, mas os pensamentos ainda tentavam me ganhar com suas argumentações. Não devo ter ficado mais do que um minuto diante da porta, mas internamente pareciam anos de luta. Finalmente, reuni forças e apertei a campainha!
Naquele dia, voltei para casa refletindo sobre quantas oportunidades perdemos quando não atuamos com liberdade e cedemos à pressão dos pensamentos. O ser humano sempre lutou pela liberdade, muitas vezes colocando a própria vida em risco por isso. Afinal, ela é o alicerce de toda realização humana e o meio para o cumprimento de nosso propósito. Viver uma vida sem liberdade seria o mesmo que não viver. Ao entregarmos o governo de nossas vidas para pensamentos alheios à nossa vontade, ficamos presos em um cárcere dentro de nós mesmos. O direito de ser livre, apesar de natural, não se realiza de maneira automática.
Nessa experiência, só pude escolher agir como queria depois de ter o conhecimento do que se passava dentro de mim: eu estava sendo conduzido pelo pensamento de timidez. Daí que, para sermos livres, seja imprescindível o conhecimento das causas. Sem isso, podemos ser governados por pensamentos de toda índole, sem a menor consciência do que está acontecendo.
Voltando ao episódio relatado, depois de apertar a campainha, falar com o professor e conseguir iniciar uma pesquisa, conquistei, principalmente, um pouco mais de domínio sobre mim mesmo. Em outras palavras, a vontade ampliou seu reinado em meu mundo interno. E a luta continua. Em cada circunstância, um novo eleito da minha vontade será chamado a provar seu valor frente a outro pensamento despótico, sempre contrário à realização de meus projetos. Não há, porém, luta mais formosa, pois é a única que nos permite exercer a verdadeira liberdade: aquela que surge de dentro de nós mesmos. É para construí-la que me empenho cada vez mais em conhecer meus recursos internos, pois só o conhecimento deles me permitirá agir com precisão contra aquilo que me limita.
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² Ver o livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, de González Pecotche.
Todos somos livres. Será?…
Vanessa Mendonça Soares – Rio de Janeiro/RJ
(Ensaios sobre Liberdade – 1ª edição – 2011 – págs. 36 e 37)
Se sou livre, por que às vezes atuo de forma completamente contrária ao que gostaria de ter feito? Não me sinto livre nesses momentos. Como isso é possível? Como posso exercer a liberdade se muitas vezes minha mente não está sendo controlada por mim mesma? Não seria o mesmo que deixar o carro na mão de outra pessoa e esperar que ela me leve ao destino a que quero chegar por mero acaso?
Estava eu no metrô, num horário de grande movimento, e em pouco tempo mais pessoas foram se posicionando atrás de mim na fila para também comprar seus bilhetes. O rapaz que estava atrás, impaciente com a demora do único caixa que trabalhava, bufava e resmungava enquanto esperava. Em dado momento, desabafou: “É um absurdo ter apenas um funcionário para atender a demanda em horário de rush. E, pior, um atendente inexperiente…” Meu primeiro impulso foi virar e reforçar a indignação manifestada, porém algo me deteve. Antes que o pensamento que me incentivava a concordar com ele pudesse se expressar, outro surgiu em minha mente e iniciou algumas reflexões lógicas: “Tudo bem, um único funcionário a esta hora não é o ideal… mas o que vai mudar se você der força ao pensamento do rapaz aí atrás? Vai aparecer outro funcionário do nada? A fila vai andar mais rápido? Não… concorda? Então, melhor se conter. A única coisa que você vai conseguir é que as outras pessoas também se alterem e o ambiente da fila fique tumultuado. Para esse problema ter solução, são necessárias outras iniciativas.”
E assim fiquei: continuei esperando pacientemente até que minha vez chegasse – o que não demorou mais do que três minutos – e segui meu trajeto.
Nessa pequena vivência, comprovei que não podemos ser livres enquanto não tomamos o controle de nossos pensamentos, enquanto não somos nós que os comandamos, e não o contrário. Conhecendo o modo como os pensamentos atuam e treinando nossa mente para identificá-los e selecioná-los, criamos defesas mentais – fundamentais para a construção de convicções baseadas em nossas próprias análises, em vez de nos deixarmos levar por pensamentos e opiniões alheias, sem reflexão.
É essa a verdadeira liberdade: a de pensar. É ela que nos permite fazer as escolhas que precisamos ou queremos fazer. Eu pensava que liberdade fosse simplesmente fazer o que viesse à minha mente a qualquer momento. Ao ver um buraco, poderia, por exemplo, escolher entre saltá-lo ou cair nele. Hoje, compreendo que a verdadeira liberdade está em saltar o buraco por saber que, se eu cair nele, poderei me machucar. Aquele que não tem o conhecimento de que o buraco existe não pode decidir se quer ou não pulá-lo; ou seja, não tem liberdade. Mas quem tem conhecimento pode escolher.
