Durante uma grande parte da minha juventude, eu percebia que certos conflitos se repetiam como resultado do ato de discutir. Colecionei amargos momentos e acabei produzindo alguns afastamentos por essa forma desagradável de atuar. As discussões eram sobre qualquer tema, fosse de natureza comum, profissional ou mesmo familiar.
Recordar o que isso produziu de dor, tanto em mim como nos demais, não vale a pena. O importante é que, em um dado momento, minha tia – que estudava Logosofia – me convidou para uma atividade na Fundação Logosófica, e fiquei impactado com as verdades que essa ciência trazia sobre a vida interna.
Pude perceber que o inimigo do ser humano está muito mais próximo do que se imagina. Outra descoberta foi que a causa e a solução dessas desagregações encontramos no mesmo lugar: no nosso mundo mental interno.
O homem reflexivo rara vez se deixa levar por seus pensamentos, e até nos momentos mais críticos costuma amparar-se na serenidade, para não atuar levado por nenhum impulso, ou seja, sob a sugestão de pensamento algum ao qual não tenha concedido, por íntima relação com ele, sua confiança e seu prévio consentimento em tê-lo como solução.
Tomando essa diretriz e buscando exercitá-la, descobri seu poder ao aplicá-la em algumas situações delicadas no âmbito familiar, que passo a narrar neste momento.
Em uma noite, recebi um telefonema de minha irmã informando que nosso pai havia decidido viajar com nossa mãe para a Região dos Lagos. Era uma viagem que ele costumava fazer com certa frequência na companhia de suas irmãs. A questão delicada naquele momento era que nossa mãe se encontrava com Doença de Alzheimer e que eles viajariam sozinhos.
Para nós, filhos, era uma ação imprudente e insegura. Minhas irmãs tentaram demovê-los da ideia, mas não tiveram êxito na empreitada, e eu sabia que já haviam ocorrido discussões acaloradas a respeito do assunto.
A dificuldade seria como abordar o tema com um homem que sempre decidia as coisas por conta própria, que sempre foi muito responsável, mas que estava decidido a realizar a viagem.
Ali estava uma bela e desafiadora oportunidade para experimentar uma diretriz logosófica.
Unindo outras diretrizes, como a de buscar o momento propício, estudar as experiências anteriores já vividas com ele e presente também os erros já cometidos, fui montando mentalmente a estratégia de como estabelecer a aproximação e como colocar as coisas. Como já havia ocorrido dois embates com minha irmã, eu sabia que teria que atuar com muita cautela e parcimônia.
Fui à casa deles e, em nenhum momento, enquanto permaneci lá, comentei a situação. Sabia que os pensamentos estavam à minha espera. Conversamos sobre várias coisas: futebol, política, e depois voltei para casa.
No outro final de semana, fui novamente e permaneci da mesma forma que na primeira vez. No entanto, eu também sabia que, pelo temperamento dele, não conseguiria ficar sem falar da questão comigo.
Ele começou comentando a resistência que minhas irmãs estavam tendo quanto à viagem que eles iriam fazer. Perguntou-me se eu sabia. Eu disse que elas não haviam comentado comigo. Ele aproveitou para falar da sua experiência ao volante, das diversas vezes em que ele havia viajado, e que não via nenhum problema na viagem.
Ele fez um movimento que não era comum fazer: perguntar a minha opinião.
Ali se abriu uma porta, uma possibilidade. Apesar de ter refletido previamente sobre algumas questões que poderia levantar, percebi que todo esse trabalho de reflexão permitiu que minha sensibilidade – outro recurso divino, explicado pela ciência logosófica – se manifestasse. Quase como num passe de mágica, surgiu no meu cenário mental uma reflexão que, até aquele momento, não tinha aparecido. Falei o seguinte:
“Eu e minhas irmãs não duvidamos da sua responsabilidade nem da sua capacidade. A única coisa que está nos preocupando é: caso o senhor passe mal ou tenha qualquer problema de saúde durante a viagem – ou mesmo estando já lá – como ela ficará?”
Naquele momento, fez-se um silêncio profundo. Esse silêncio deve ter levado cerca de cinco minutos. Quando ele voltou do silêncio, após a reflexão, mudou de tema. Naquele momento, senti que não haveria mais viagem.
A conclusão é que, com o auxílio das diretrizes logosóficas, pude alcançar não somente a mente, mas também o coração do meu pai. Ali houve uma comunhão: ele e eu ficamos em paz.
A experiência culminou com a decisão dele de não viajar, para não colocar em risco a vida de um ser querido. Ele pôde também desfrutar de uma liberdade interna diante de pensamentos impositivos e autoritários.
Quanto a mim, pude igualmente desfrutar de uma liberdade interna, pois consegui frear e anular pensamentos de intolerância e de discussão – que só têm uma função a cumprir na mente humana: de estabelecer o caos mental, tanto individual como coletivo.
