Esta manhã acordei com trovões e trovoadas. Mas não era uma tempestade; era uma chuva mansinha, e esse barulho me fez imediatamente recordar um dia específico da minha infância.
Eu estava só, no quarto de brinquedos da minha casa, no segundo andar. Minhas irmãs estavam na escola, minha mãe no andar de baixo, provavelmente na cozinha ou junto à máquina de costura, e meu pai, como sempre, viajando.
Não me sentia só. Pelo contrário, estava gostando muito de ouvir o som da chuva batendo nos vidros das janelas. Era uma chuva diferente daquela que eu observava agora, através de outra janela, em outra cidade e com outra vida.
A chuva da minha infância era forte, pesada, sem vento, e caía com intensidade sobre as calçadas lá embaixo, formando poças de água que, logo em seguida, se transformavam em pequenos rios que corriam pelas sarjetas.
Que momento sublime! Sentia-me em outro mundo…Já me imaginava de pés descalços caminhando por aquela água limpa, transparente e refrescante.
Por que aquelas águas me chamavam tanto a atenção? Qual era o fascínio que exerciam sobre mim?
Levantei-me da cama e abri o pouco que podia da janela. Deparei-me com o cheiro da chuva – ou melhor, com o cheiro da terra molhada respirando através daquela chuva calma e tranquila.
Mas não o dia. Este estava emburrado, cinzento, escuro, todo coberto por uma espessa neblina. A chuva continuava fraca, com seu barulho característico, sem vento: uma chuva produtiva, que alimenta o solo e as plantas sem causar prejuízos.
Olhando para aquela paisagem que, para muitos, poderia parecer desolador, eu a recebia como um presente da natureza. E foi então que recordei outro dia de chuva da minha infância: um dia de inverno não muito frio, sem chuva propriamente dita, só um chuvisqueiro fino, tranquilo.
Eu caminhava sozinha por uma cidade diferente daquela da primeira lembrança, correndo por uma estradinha deserta, por entre a vegetação rasteira, para brincar nos trilhos do trem que passava nos fundos do quintal da minha casa.
Ah, infância!Quantas recordações, quantas passagens, quantas aprendizagens…
O que a criança de ontem pode me ensinar? O que ainda posso aprender com ela?
O que essa criança que fui pode me revelar sobre o espírito que vivia nela e que hoje continua vivendo nesta senhora de 77 anos, mãe, avó e estudante de Logosofia?
Ainda não sinto que ele tenha tomado as rédeas da minha vida, mas percebo seus sussurros me ajudando e me guiando em momentos bons, em momentos ruins, não importa a circunstância; sinto seu influxo sobre mim.
A criança que fui está me ensinando a voltar os olhos físicos e os olhos do entendimento para a natureza, para a Criação, a respeitá-la e amá-la, procurando compreender o que Deus colocou ali por meio de Seu Pensamento e que me cabe descobrir.
Essa criança que fui continua me ensinando a confiar, de forma inabalável, em tudo o que Deus criou para o bem e evolução dos seres humanos, e a não me deixar dominar por falácias que possam me desviar deste formoso caminho da evolução consciente.
Que venham mais recordações daquela inocente criança que amava a natureza e que, por intuição e inspiração, se deleitava com tudo aquilo que a Criação apresentava para ela.
