“… e foram felizes para sempre”. Assim terminavam as histórias que eu ouvia quando criança. Depois de um confronto entre o mocinho e o bandido, a vitória do bem contra o mal encerrava a trama e nos ensinava que a felicidade perpétua se alcança quando escolhemos o bem como caminho. Era essa a realidade que eu queria para a minha vida, ainda que já percebesse que a felicidade não sorria para todos, nem mesmo para os bons.
Na juventude fui advertido de que essas fantasias tinham um propósito de manipulação. Com isso, os valores de bem e mal tornaram-se ambíguos e imprecisos, confundindo-se com frequência e perdendo a segurança da verdade – que também se tornara relativa. Assim, o bem e o mal passaram a fazer parte de uma realidade nebulosa, sem a certeza da verdade, do erro ou do acerto.
A Logosofia me trouxe uma nova visão do bem e do mal e me surpreendi com a lógica de seus conceitos. Neles, o bem é tudo aquilo que favorece e se identifica com as leis que regem o universo em direção à evolução e ao aperfeiçoamento. O mal, por sua vez, é tudo o que atua em sentido contrário, representando os desvios que afastam o ser do caminho mais coerente. Esses conceitos podem soar excessivamente simplórios, mas penso que seja assim porque complexos somos nós.
Em nosso caminho evolutivo, o mal retarda, provoca o erro e favorece o desvio. Já o bem, ao contrário, contrapõe-se a ele, restituindo-nos nossa condição plena de seres espirituais e criadores. O mal surge da ignorância, e da inconsciência; causa dor e sofrimento; deprime e limita. Já o bem se apresenta na alegria pura, na confiança e nas energias renovadas. À medida que vencemos o mal, vamos acumulando conhecimento sobre as melhores condutas a adotar na vida.
A grande dificuldade é que o mal existe dentro de nós sem que nos demos conta de sua presença, seja por inconsciência, seja por considerarmos que ele não é tão prejudicial assim. E ele fica ali, por anos e gerações, provocando o erro e o sofrimento repetidamente, em movimentos cíclicos, até o dia em que o descobrimos e decidimos agir para combatê-lo e vencê-lo. Quanto antes agirmos, mais plenamente vamos usufruir da condição do bem.
Há pouco tempo, travei e venci uma dessas lutas. Eu costumava expor minhas ideias tão logo elas surgiam em minha mente, talvez para desfrutar delas antecipadamente ou até para me vangloriar de sua existência. O resultado, porém, era que quase sempre essas ideias se perdiam e não se realizavam, e eu não compreendia o motivo.
As pessoas me diziam que não era bom falar tanto, mas essa explicação não me parecia razoável nem oferecia uma justificativa consistente que me levasse a mudar minha forma de atuar.
Um dia, ao estudar sobre a indiscrição, entendi que esse era um mal recorrente em mim e que me levava a expor minha intimidade – o mundo interno que eu deveria resguardar na mais absoluta privacidade. Era nele que minhas ideias nasciam e existiam, ainda frágeis e vulneráveis, precisando de cuidados e proteção para crescerem até adquirir a força necessária para se manifestarem em projetos maduros e realizações concretas.
Ao revelá-las de forma prematura, eu as expunha à natural especulação e curiosidade do mundo. Bastava que alguém fizesse uma sugestão ou levantasse um questionamento e isso já era suficiente para que meu ânimo se abatesse, minha vontade enfraquecesse e aquelas ideias ainda embrionárias se tornassem mais frágeis.
Enquanto não compreendi o mal que a indiscrição me causava, não consegui reagir. Depois, ao perceber quantas ideias ela tinha interrompido em minha vida, passei a encará-la com atenção e a buscar uma força para combater esse mal. Foi assim que, ao cultivar a discrição como conduta, passei a proteger coisas tão caras à minha intimidade e superar esse antigo hábito.
Aliar-se às forças do bem não significa apenas usufruir dos benefícios que ele traz, mas também uma oportunidade de triunfar e dar plenitude à vida, pois em pouco tempo podemos avançar o que a ignorância nos impediu de alcançar por milênios.
O efeito do bem não se limita a tornar o ser humano mais eficiente. Agir em favor do bem é preservar valores universais que nos foram confiados como parte criadora da Criação – uma criação que não pertence somente a mim, mas ao universo. Vencer o mal torna-se, portanto, uma missão que dá sentido ao motivo pelo qual viemos ao mundo.
