Uma linha marcante divide a minha vida em duas partes: antes e depois de conhecer e me vincular aos ensinamentos de González Pecotche.
Desde muito cedo, percebi que a realidade da vida era mais ampla do que aquilo que eu podia enxergar. Oculta aos sentidos, ela um dia seria revelada. Era como se a parte perceptível fosse só a superfície que esconde a profundidade submersa do verdadeiro conteúdo da vida. Um dia eu penetraria, então, nesse campo desconhecido para conhecer as verdades, a síntese do que rege o mundo, como se finalmente encontrasse o fio do lacre da grande revelação.
Nessa busca, passei em muitos lugares e li muitas coisas. Na maioria das vezes, ao tentar me aprofundar, encontrava uma parede, com a imagem de um horizonte que parecia verdadeiro, mas era apenas o cenário de um teatro, uma ficção. Outras vezes, alegorias sugestivas me faziam acreditar que havia algo de valor mais adiante; porém, à medida que me aproximava, recolhiam-se, recuavam, e ficavam cada vez mais distante.
Até que um dia cheguei a um lugar simples e fui convidado a entrar. Falavam de coisas que, a princípio, achei pretensiosas: Deus, espírito, alma… Não fosse a sobriedade do lugar, eu teria dado as costas e partido. Mas o ambiente era tão educado, sério e acolhedor que pensei: não custa ficar e saber um pouco mais.
Por precaução, preparei minhas defesas, seguindo o cuidado que a desconfiança me sugeria – experiências recentes haviam me ensinado isso. Fiz para mim uma boia com os valores que havia cultivado até então; ela me ajudaria a não me perder em águas ainda desconhecidas, e a preservar aquilo que, mesmo insuficiente, era o que eu possuía.
Ao penetrar nas palavras, tudo o que eu via, ouvia e lia era carregado de emoção, mesmo sem ser poesia. Onde estava o segredo? Não havia métrica, rima nem outros recursos. As palavras me emocionavam, como emociona tudo aquilo que se revela ao coração. Mais que isso, eu me comovia com a pureza da lógica. Algo dentro de mim foi tocado, como uma borboleta que pousa delicadamente em nossa roupa e nos faz sentir uma ligação com ela.
Queria ver a Deus e a proposta era conhecê-Lo. Mas como? O Criador se revela na Criação – é simples. Aproximei-me dela ávido por conhecer o porquê das coisas ao meu redor. Acabei encontrando, principalmente, a mim mesmo. Uma face de Deus se revela, e uma parte desconhecida de mim se manifesta. Existe magia na ciência.
Assumi a responsabilidade pelo governo de minha vida. Hoje, respondo pelos meus erros e pelas minhas minhas conquistas, que posso compartilhar com outros. Só de pensar nisso, uma sensação de liberdade me invade: sou dono da minha vida. Ela se torna perfeita na medida do meu esforço em busca dessa perfeição.
Uma vez seguro, larguei a boia e me atirei nessas águas. Senti seu frescor, sua pureza. Fui ao fundo e voltei – aprendi a nadar. Quanta generosidade pode caber na vida de um homem que fez tudo isso se tornar realidade? Penso que a correspondência seja a única alternativa justa de gratidão.