É sabido que, desde suas remotas origens, o humanismo sofreu inúmeras variações, devido às múltiplas e contraditórias opiniões vertidas em torno de seu discutido objetivo. Já se quis apresentá-lo de muitas maneiras, sem que se tenha alcançado ainda uma concepção verdadeira nem definitiva. Não é nosso propósito nos pormos a tratar aqui da diversidade de teorias que foram suscitadas sobre ele, razão pela qual só faremos uma ligeira referência à sua trajetória, que não encontrou ainda o leito onde pudessem desembocar as aspirações que lhe deram origem e o mantiveram em clássico debate ao longo dos séculos. Têm-se estudado as excelências das idades antigas, como ponto de partida para o esclarecimento das ideias que contemplam o progresso do homem em suas manifestações mais destacadas no campo das ciências, das artes, da literatura etc.; veio-se seguindo cronologicamente o estudo das atividades da inteligência, em sua constante produção de qualidades superadas com o advento de novas ideias, que estabeleceram outras tantas novas formas de entender a concepção humanista; entretanto, os pensadores não conseguiram pôr-se de acordo quanto à proclamação de um conteúdo ajustado à realidade universal e humana do indivíduo, o que foi – não cabe dúvida – a causa que debilitou essa corrente de pensamento e fez com que, em nossos dias, se clamasse por um novo humanismo.
Seja como for, o certo é que não houve muita coincidência ao se instituir esse termo como padrão de um conceito; prova-o o fato de ele ter sido desdobrado em diversas apreciações, segundo as épocas.
A Logosofia dá a conhecer o humanismo em seu conteúdo essencial, cujo exercício facilita a adoção entusiasta e consciente das regras éticas assinaladas por seu ensinamento. Começa este novo humanismo por exaltar no ser a parte humana de Deus, a centelha divina, latente nele até a chegada do homem a seu mundo interno, fato que o leva a alcançar a plenitude de seu aperfeiçoamento psíquico, moral e espiritual. Com esse objetivo, a sabedoria logosófica o prepara, ensinando-lhe passo a passo, e processo após processo, os múltiplos aspectos que devem condicionar sua vida. Guia-o para o conhecimento do humanismo nas profundidades de seu ser e, a partir daí, o conduz a desenvolver suas aptidões e qualidades, até consolidar nele a essência humana, pondo-o em condições de contribuir para a consolidação dessa essência no coração da humanidade.
Temos, em suma, que humanismo é, para a Logosofia, o ser racional e consciente, que realiza em si mesmo as excelências de sua condição de humano e de seu conteúdo espiritual, sobre a base de uma incessante superação. As referidas excelências deverão estender-se, pelo exemplo e pelo ensinamento, a toda a humanidade. A admiração consciente e o respeito pela Criação, da qual o homem é parte e súdito a um só tempo, deverão inspirar-lhe o respeito e a consideração a seus semelhantes, por ser isso sua consequência lógica. (Do livro O Mecanismo da Vida Consciente, Capítulo 12)
Como se poderá apreciar, esta nova concepção do humanismo traz consigo um grande elemento: o homem mesmo, o ente humano, internando-se nas profundidades de seu ser para encontrar, ali, o fundo ou a essência de seu próprio humanismo, o qual, por meio do processo de evolução consciente, se projeta em direção ao mundo superior, conectando-o ao divinismo de Deus, onde – queira-se ou não – as grandes aspirações humanas se substanciam e se identificam com o pensamento que alenta a vida universal e assinala ao homem, em muitos de seus aspectos, o processo de sua ascensão rumo aos arcanos de sua enigmática existência.
O exposto permitirá compreender as razões que intervêm para que, deliberadamente, nos afastemos das formas clássicas que tanto aguçaram o talento no cultivo e beleza das letras e nas riquezas da história, em harmoniosa conjunção – dizendo em termos cabais – com o desenvolvimento da personalidade humana. Poderão dizer que nossas ideias são revolucionárias. Responderemos que o são, efetivamente, porém na mais alta acepção da palavra.
Não concebemos o humanismo como atitude meramente especulativa, por mais que estude e analise os fatos e os pensamentos dos homens em suas respectivas épocas. Talvez outro termo se enquadrasse melhor nessa classe de estudos, já que, por amplos que eles sejam, não vemos em que se relacionem com o ser íntimo, em cujo coração e sensibilidade haverão de ser encontradas as razões do grande sentir que, imanente nele, tende a estender-se à humanidade.
Não nos aventuraremos se dissermos que esse mesmo sentir é o que conforma a ética individual e coletiva do ponto de vista de seu fundo humanístico. Derivaremos por um instante nosso tema para esse aspecto fundamental do homem culto, para expressar que a ética logosófica se baseia no conceito do bem, mas firmando-se na consciência. Do conhecimento das normas éticas que devem reger a vida, o logósofo extrai as regras da correção interna e externa que iluminarão sua conduta. Se a Logosofia tem dito que não há evolução consciente sem ética, é porque as considera inseparáveis; portanto, a ética deve ser, entre outras, uma de suas manifestações imediatas. Longe de ser exercida circunstancial ou parcialmente, é praticada no campo experimental logosófico de forma global, constituindo seu hábito toda uma virtude.
Diferentemente, pois, do conceito generalizado, nosso humanismo parte do próprio ser sensível e pensante, que busca consumar dentro de si o processo evolutivo que toda a humanidade deve seguir. Sua realização nesse sentido haverá, depois, de fazer dele um exemplo real daquilo que cada integrante da grande família humana pode alcançar.
A Logosofia não trata de criar um novo tipo de homem, mas ensina ao ente humano, isso sim, a arte de criar a si mesmo, reconstruindo, com os fragmentos dispersos de sua vida-individualidade-destino, a imagem genuína do pensamento causal.
A presença de sentimentos superiores, configurando o esquema psicológico do ser em franca evolução, representa o humanismo mais cabal e inobjetável, e não se haverá de esquecer que à nova geração de pensamentos logosóficos se deverá em grande parte, senão em sua totalidade, a possibilidade de fazer efetiva uma aspiração profundamente sentida pela alma humana.