Para conhecer um artista, nada melhor do que conhecer sua arte. Para compreender seu espírito e seu verbo, nada melhor do que observar as consequências de sua obra, sobretudo os frutos que dela resultam.
Na instituição, na escola e nos livros logosóficos encontrei aquilo que posso chamar de corpo, alma e espírito de sua obra — três dimensões que se integram admiravelmente. Essa percepção, porém, não foi imediata. Surgiu gradualmente, à medida que fui estudando e, principalmente, experimentando em mim seus ensinamentos.
Entre os aspectos que demonstram ser ele um verdadeiro Mestre, um se destaca de forma especial: o fato de González Pecotche ter iniciado sua obra criando uma escola para adultos. Somente trinta anos depois surgiria o Colégio Logosófico. Essa culminação foi precedida por um longo e paciente trabalho dedicado à formação dos primeiros docentes de sua pedagogia.
Esses primeiros educadores não apenas estudaram uma pedagogia: viveram-na. Experimentaram-na em si mesmos e na educação de seus próprios filhos. Esse fato, mais do que inédito no mundo, revela uma lógica simples e profunda: ninguém pode ensinar aquilo que ainda não aprendeu.
Como consequência dessa didática — a de começar experimentando em mim mesmo, por ser a parte da Criação que me é mais acessível — fui, pouco a pouco, conhecendo sua pedagogia. E desse processo surgiu uma mudança: em vez de temor, nasceram em mim o respeito e o amor a Deus.
Passei, então, a compreender a vida de outra forma: um grande campo experimental. A vida, por si só, é uma fonte permanente de estímulos. Foi assim que passei a enxergar minha existência neste planeta: uma aula diária, sem férias nem feriados, mas com muitas provas voltadas ao nascimento e à evolução do espírito individual.
Por desconhecê-la, passei um bom tempo sem perceber essa realidade. Inconsciente dela, muito ocupado com a profissão, os compromissos e as distrações, era como se eu me sentasse nas últimas carteiras dessa escola da vida, distraído e pouco atento ao que ela procurava me ensinar.
Observando mais amplamente, tenho a impressão de que sentar-se nas últimas carteiras não é uma experiência individual. A história da humanidade mostra que essa tem sido a conduta de muitos e que, como consequência, não se tem aprendido com os erros, que continuam a se repetir no mundo todo.
Devemos, sim, ser gratos à natureza instintiva de nossos ancestrais – foram valentes, venceram as feras, adaptaram-se aos rigores do ambiente e cumpriram duas grandes leis naturais: a da conservação e a da preservação.
No entanto, lamentavelmente, por falta de uma orientação segura, a natureza instintiva do homem ainda prevalece sobre a espiritual. E, assim, somos mais ferozes e menos valentes; mais temerosos e menos humanos. E aí talvez resida uma das razões dos tantos desequilíbrios que ainda observamos.
Partindo de seu estágio evolutivo primário, a trajetória da formação humana sofreu, a meu ver, um grave desvio por volta do século VI, com o encerramento das atividades das primeiras escolas de aperfeiçoamento moral: a Academia, fundada por Platão; o Jardim de Epicuro; e o Liceu, de Aristóteles. A partir desse momento, iniciou-se um período de obscuridade no processo de formação humana.
Entretanto, como nada consegue impedir a evolução do espírito humano, em diferentes épocas surgiram homens de inteligência privilegiada para contribuir com esse processo evolutivo.
Inicia-se, a meu ver, com Galileu Galilei, em 1632, que nos reposicionou em relação ao Sol; e, cerca de duzentos anos mais tarde, com Louis Pasteur, que, em 1861, revelou-nos a existência de formas de vida invisíveis: os microrganismos. De modo semelhante, surge a obra de González Pecotche, em 1930, a revelar-nos outra realidade invisível — os pensamentos —, propondo uma ciência voltada à vida interna do ser humano.
Nunca estive na presença de González Pecotche. Meu contato com ele sempre se deu de forma mental e sensível, por meio de seus escritos. Seus livros despertaram em mim um interesse imediato. Sinto que o conheci mais por seu verbo do que por suas palavras.
Recordo-me da primeira leitura de O Mecanismo da Vida Consciente, quando um pequeno trecho despertou em mim especial atenção: a ideia de que a própria consciência reage diante de qualquer atitude equivocada, permitindo-nos perceber até mesmo as mais leves intenções.
Essa compreensão trouxe uma consequência importante: a percepção de que cada ser humano é o redentor de si mesmo. Cada um deve saldar as próprias dívidas e, para isso, não necessita de intermediários. Trata-se de uma prerrogativa inata. Foi então que passei a compreender a vida terrena como uma oportunidade de redenção e a Criação como uma grande escola, concebida por Deus, na qual todos nós estamos matriculados. Nessa perspectiva, o amor do Criador revela-se justamente na igualdade de oportunidades que a vida oferece a todos: a de aprender e ensinar.
Como consequência lógica, compreendi também por que o amor dos pais surge antes do amor dos filhos: porque nasce da experiência e do desejo de transmitir aquilo que aprenderam, buscando proporcionar-lhes uma vida mais feliz e mais consciente. No fundo, todo pai deseja que seu filho seja melhor do que ele, — e esse impulso, quando consciente, transforma-se em realizações concretas voltadas ao bem do próximo.
Assim, um novo conceito se consolidou em mim: amar é ensinar. Mas não apenas ensinar visando ao sucesso profissional ou material — algo que a humanidade já pratica há muito tempo —, e sim transmitir valores morais e cultivar um verdadeiro patrimônio espiritual. Para ensinar, é indispensável dar o exemplo, e corrigir com amor não significa punir.
Surge então uma nova questão: quem ensina os pais a ensinar? Ao longo de minhas passagens por escolas, livros e diferentes autores, não encontrei a resposta que me satisfizesse plenamente. Foi na escola criada por González Pecotche que comecei a compreender melhor esse processo, aprendendo que a vida é, em si, a grande escola da evolução humana. Uma escola na qual cada um pode, se assim o quiser, reduzir sua ignorância e tornar-se capaz de aprender e de ensinar, pelo exemplo, o verdadeiro sentido da vida.
Compreendo, então, que, nos muitos ciclos de sua existência, González Pecotche aprendeu na grande escola da vida e, por amor à humanidade, criou uma instituição destinada a transmitir o que nela aprendeu. Vejo-o, assim, como um dos alunos mais adiantados: um Mestre na trajetória da existência humana. Em sua escola está plasmado o amor que dedicou à humanidade.
Se o pedagogo é aquele que conduz quem não sabe a aprender com quem sabe, vejo nele um orientador em sentido mais amplo: alguém que conduz o ser humano a um encontro mais consciente com sua própria realidade e com o sentido transcendente da existência. É aquele que pode levar-nos a conhecer, amar e respeitar plenamente o Criador de tudo quanto existe: Deus.
Concluo, portanto, que, embora a humanidade tenha avançado significativamente no ensino de conteúdos técnicos e científicos, ainda busca caminhos mais consistentes para ensinar aquilo que talvez seja o mais essencial: como tornar-se melhor.
É nesse ponto que a obra de Carlos Bernardo González Pecotche passou a fazer sentido para mim. Não bastava escrever livros. Era necessário criar uma Escola e formar os primeiros docentes, pois sua obra não se limita à transmissão de conteúdos. O Colégio e a Pedagogia Logosófica propõem um ideal mais elevado: a formação consciente da individualidade.