Eu estava cursando o primeiro ano do curso de Direito e estudava à noite. Naquele dia, havia estacionado o carro em um estacionamento próximo à faculdade. O sistema deles tinha parado de funcionar, mas, como eu estava atrasada, deixei o carro ali mesmo e fui para a aula.
Ao sair da faculdade, cansada após um dia repleto de atividades, soube que o sistema do estacionamento ainda não funcionava e que só aceitavam dinheiro em espécie como forma de pagamento. Eu não tinha nenhum dinheiro comigo, meu celular estava descarregado e a fila de pessoas atrás de mim só aumentava…
Enquanto tentava pensar no que faria, uma mulher que eu nunca tinha visto se aproximou e, com muita gentileza, disse: “Não se preocupe, eu pago para você”. Foi um alívio tão grande! Pedi os dados bancários dela para reembolsá-la posteriormente, mas ela recusou, dizendo apenas que aquele bem poderia ser transmitido a outras pessoas.
Fiquei refletindo sobre o que ouvira. Nunca mais a vi. Não me lembro de seu nome, nem de sua fisionomia. Mas do seu gesto eu me lembro. E só a recordação dele me gera estímulos para retribuir esse bem a outras pessoas, seja ajudando alguém que um dia necessite, seja encontrando outra forma de retribuir a ajuda que recebi naquela noite.
Desde criança, somos ensinados a agradecer como forma de reconhecimento por algum benefício, auxílio ou favor recebido. O mero ato de dizer “obrigado” torna-se, ao longo da vida, um dos tantos automatismos que vamos adquirindo.
Há algum valor por trás dessa atitude rápida e automática de dizer “obrigado(a)”? Se existe alguma virtude nesse gesto, qual seria ele?
Em primeiro lugar, ao agradecermos, expressamos o reconhecimento de que aquilo que recebemos possui valor. Reconhecemos que se trata de um bem.
Agradecer também denota humildade, ao reconhecermos que alguém foi importante para nos proporcionar algum conforto, ou um bem, ou alguma circunstância, etc.
O bem tende a se multiplicar quando é valorizado. A indiferença, ao contrário, enfraquece o valor do que recebemos.
Mas e o conceito de gratidão que tenho aprendido com o estudo logosófico?
A gratidão, em seu sentido essencial, não se limita ao agradecimento verba ou à correspondência, como uma simples cortesia por algo recebido.
Em uma semana, cultivei o pensamento de não reclamar de nada. Obviamente, não obtive 100% de êxito. Mas foi interessante observar os movimentos internos gerados ao tentar cumprir aquele desafio.
Quando surgia o pensamento de queixa e eu conseguia detê-lo conscientemente, imediatamente minha sensibilidade atuava: “Por que estou reclamando? Quais são os bens que não estou sendo capaz de reconhecer neste momento?
Se estou presa no trânsito, é porque tenho um carro confortável que me leva ao trabalho e também tenho um trabalho, conquistado após muitos anos de estudo e dedicação.
Nesse ensaio, começo a identificar naturalmente o bem em muitas coisas, a valorizá-las e a me sentir mentalmente – e até fisicamente – mais leve.
A gratidão verdadeira é sentida quando há consciência. Aliás, os grandes sentimentos não estão na consciência?
Depois de identificado o bem, devemos valorizá-lo.
Começava com uma sensação de aconchego, e a gratidão ia crescendo dentro de mim. Já não era mais o carro, o aspecto material, mas tudo o que ele representava para mim e para a nossa família.
A gratidão pelo carro transformava-se em gratidão pelo esforço da minha mãe em conquistar aquele bem. Daí vinha a gratidão pela minha família, que me proporcionava uma série de confortos e bem-estar e que, ao me oferecer essas condições favoráveis, permitia que eu pudesse me desenvolver em todos os sentidos. E, por fim, surgia a gratidão ao Criador pela vida e pela oportunidade de vivenciar essas experiências.
Assim, uma experiência aparentemente simples gera uma cadeia de gratidão que vai se expandindo, desde que cultivemos dentro de nós um estado de consciência do bem recebido.
E se eu não tivesse o carro? Será que eu teria menos motivos para ser grata?
Também tenho cultivado a gratidão a mim mesma, ao valorizar o que já realizei e ao recordar minhas pequenas conquistas, pois já me aconteceu várias vezes de buscar algo e, depois de tê-lo conquistado, esquecer o seu valor.
Qual o sentido de valorizar tanto aquilo que ainda não conquistei e desvalorizar o que já conquistei? Qual o sentido de viver o presente se, imediatamente após vivê-lo, tendo a esquecê-lo?
Esse é o maior tributo que ofereço ao Criador, que me brindou com tantos recursos físicos, psicológicos, sensíveis e espirituais, para que eu possa viver a verdadeira vida.
E você, já recebeu alguma ajuda, um conselho ou uma expressão de afeto de alguém que tenha sido tão providencial a ponto de parecer ter uma procedência divina?
Qual foi a repercussão disso em sua vida?
E como corresponder a esse bem que você recebeu?