Lembro-me como se fosse ontem, do momento em que, no bloco cirúrgico, ouvi o choro forte do meu filho e, pela primeira vez, pude senti-lo em meus braços. Experimentei um amor que jamais havia sentido: um amor instantâneo, um sentimento puro, uma emoção difícil de traduzir em palavras, que só conseguimos compreender verdadeiramente vivendo-a.
Que amor é esse que brota de forma tão natural, que nasce junto com o filho e move a região mais profunda do nosso sentir?
A Logosofia me ensinou que o amor de mãe é o que mais se assemelha ao amor de Deus.
Nos primeiros meses, meu bebê teve muitas cólicas e foram inúmeras noites mal dormidas. Os cuidados físicos absorviam grande parte do meu tempo.
Mas não me esqueço de um dia, em especial, quando ele estava completando seis meses. Eu estava sozinha em casa, com ele no colo, e, pela primeira vez, olhei bem em seus olhos, enxergando muito além das tantas demandas físicas e externas que aquele pequeno ser exigia de mim.
Fui tomada por uma emoção profunda ao estar mais consciente de que tinha em minhas mãos uma tarefa muito maior do que simplesmente atender às necessidades naturais de um bebê.
Era toda uma vida que dependia de mim; um espírito em evolução, um novo ser que eu deveria educar. E isso exigiria de mim o desenvolvimento de recursos que eu ainda não tinha.
Ali começou minha verdadeira jornada como mãe. Foi o momento crucial, o princípio consciente que se fez presente, chamando-me à imensa responsabilidade que representava ensinar para a vida, educar com o foco no espírito e não somente no ser físico.
Passei a me perguntar em cada nova experiência como mãe: o que estou ensinando que fará, de fato, meus filhos melhores, mais felizes e seres humanos de bem?
Todos os dias vivemos inúmeras experiências com nossos filhos, e não faltam oportunidades para lhes oferecer bons estímulos. Uma pesquisa realizada na escola me proporcionou uma dessas oportunidades.
Meu filho, na época com seis anos, estava estudando sobre o corpo humano e fez uma pergunta que se tornaria o ponto de partida para sua investigação: “Como funciona a visão?”
Pensei que aquela pesquisa poderia cumprir muitos objetivos em sua vida, a começar por despertar nele o gosto pela investigação, por querer saber mais e por aprender algo novo.
E foi assim que começamos, pesquisando sobre a visão. Meu filho pediu a uma amiga minha, oftalmologista, que gravasse um vídeo explicando como funcionava a visão. Ela apresentou, de maneira didática, todo o mecanismo oftalmológico.
Com base nessa explicação, montamos, para cada colega, um kit com uma esfera de isopor que se abria. No dia da apresentação, eles poderiam montar um modelo do olho humano, desenhando a pupila, a íris da cor que desejassem e a retina, além de fazer um pequeno orifício para encaixar o nervo óptico. Ele escolheu algumas imagens e, juntos, fizemos um lindo cartaz para que pudesse compartilhar com os colegas tudo o que havia aprendido.
Ele havia estudado bastante, e a pesquisa estava pronta, mas, como mãe, eu sentia que ainda faltava algo.
Essa era apenas uma parte da experiência, pois faltava ensinar ao meu filho algo que transcendesse o conhecimento sobre o corpo físico.
Existe um outro tipo de conhecimento que diz respeito aos aspectos mais importantes da vida e que, muitas vezes, passam despercebidos. São, porém, esses aspectos que contribuem verdadeiramente para a nossa formação moral e espiritual.
O que mais eu poderia ensinar ao meu filho através desse trabalho escolar? Que dificuldades ele estava apresentando e que eu poderia ajudá-lo a superar, transformando aquela pesquisa em uma experiência realmente instrutiva para sua vida?
Elegi dois aspectos. O primeiro foi a gratidão. Meu filho precisava tornar-se mais consciente de todo o bem que já possuía, para ser verdadeiramente grato por tudo que tinha. Fizemos, então, uma experiência que depois ele repetiu com os colegas no dia da apresentação. Pedi a ele que fechasse os olhos e me dissesse o que estava vendo.
Ele respondeu que estava tudo escuro e que não enxergava nada. Perguntei como era aquela sensação e ele respondeu: ”Muito ruim.” Contei-lhe que algumas pessoas já nascem sem visão ou, por algum motivo, deixam de enxergar ao longo da vida. Pedi que imaginasse como seria viver assim e se alguma vez havia sentido gratidão pela oportunidade de enxergar. Ele admitiu que nunca tinha pensado sobre isso.
O segundo aspecto que queria ensinar ao meu filho era o valor do conhecimento na vida, as possibilidades ilimitadas que ele nos abre e a importância do esforço e da vontade de aprender cada vez mais.
Analogamente ao cérebro, com suas funções perfeitas, temos a mente, que possui inúmeras faculdades e recursos, mas que não funcionam tão bem porque não aprendemos como utilizá-los. Duas dessas faculdades estão muito relacionadas à visão; são elas: a observação e o entendimento. De que adianta ver, sem observar e sem entender o que estou vendo?
Observar é ver com atenção. E o entendimento são os olhos da mente.
A visão física não existe apenas para que possamos enxergar, sem fazer uso das maravilhas que vemos. Tudo isso pode e deve cumprir um objetivo maior: aprendermos, por meio do que vemos, coisas importantes para a vida.
Recordei-me de um livro infantil que se chama “Coisas que a gente não vê”, da editora Lire. Nele, a professora propõe que os alunos observem atentamente tudo ao longo do caminho entre suas casas e a escola. Surpreendentemente, eles descobrem inúmeros detalhes que sempre estiveram ali, mas que nunca haviam notado. É uma história que nos ensina que existe um mundo fora de nós e outro dentro de nós, ambos muitas vezes desconhecidos por falta de conhecimentos que nos permitam compreender como funcionam.
Realizei muitas vezes com meu filho o exercício proposto pela professora do livro, de observar o que está fora e o que está dentro. Aos poucos, ele compreendeu como é diferente ver e observar. Depois, contou aos colegas a história do livro e até sorteou um deles para realizar o exercício em sala de aula.
Dei ao meu filho um exemplo que ele também levou para os colegas. No dia da apresentação, assim como eu havia feito com ele, meu filho projetou uma frase em árabe e perguntou o que ela significava. Ninguém soube responder.
– Mas, se estamos vendo – perguntou ele –, por que não entendemos? Porque não temos o conhecimento da língua árabe. Não adianta ver sem entender. Traduzindo o que estava escrito em árabe para o português, surgiu a frase: “Aprendemos a ler e a escrever!”. Agora todos viram e entenderam.
Meu filho estava no primeiro ano; ele e os colegas haviam acabado de ser alfabetizados. Que experiência linda é essa de aprender a ler e escrever! Eu disse a meu filho que, assim como aprender a ler, havia muitas outras coisas que ele ainda precisaria aprender e que lhe permitiriam começar a ver coisas que antes não via. E que, quanto mais conhecimento adquirimos, mais capazes, mais confiantes e mais felizes nos tornamos.
Aproveitei para ensinar-lhe algo que está no livro Bases para Sua Conduta, de González Pecotche:
Assim, concluímos a pesquisa. Fiquei muito feliz por ter sido capaz de ensinar ao meu filho algo que ia além do conhecimento comum e que, de fato, faria diferença em sua vida.
E esse foi só o começo dessa vivência, pois vira e mexe, observamos o que temos a aprender no trajeto de casa até a escola. Sutilmente, em alguns momentos, digo ao meu filho para fechar os olhos, e esse simples gesto já o faz recordar-se da gratidão. Nos momentos de vacilação ou de falta de vontade para fazer o dever, lembro-lhe que essa é uma oportunidade de enxergar um pouco mais e de ampliar seus conhecimentos.
Como tenho aprendido com a Logosofia, os resultados não vêm como mágica; fazem parte de um processo. O aprendizado exige repetição, exige falar, mas, principalmente, exige ser exemplo do que se quer ensinar. Exige que eu me policie o tempo todo, para que minhas atuações sejam coerentes com minhas palavras.
