Família

A lagarta que não virou borboleta

outubro de 2026 - 3 min de leitura
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A lagarta que não virou borboleta

outubro de 2026 - 3 min de leitura

Certa vez, levei minha filha de dois anos a uma pracinha que ficava perto de casa. Fomos com muito cuidado, e fiquei feliz ao ver que ali havia algumas crianças brincando tranquilamente, acompanhadas de seus pais.

No meio da pracinha, havia um escorregador que minha filha achou muito divertido. Subia as escadas e descia feliz, alternando as descidas com outras crianças da mesma idade. Em determinado momento, uma dessas crianças viu uma lagarta e disse:

—  Papai, olha! Uma lagarta bem grande! — disse a menina.

— Filha, olha lá quem está vindo ali! — disse o pai, fazendo com que a criança olhasse para o outro lado, enquanto matava a lagarta, certamente temendo que ela queimasse a criança.

— Ué, papai, cadê a lagarta que estava aqui? —   perguntou a criança, assim que voltou seu olhar.

— Ah, filha, a lagarta virou borboleta. — respondeu o pai.

Minha filha viu a cena e, em sua fisionomia, observei que não estava entendendo nada. Como a lagarta tinha virado borboleta? Ele não tinha matado a lagarta?

Por ser muito pequena, ela logo se entreteve com a brincadeira, mas aquela frase me incomodou: “a lagarta virou borboleta”.

Sabemos que não é fácil dizer algumas verdades às crianças, pois nem sempre elas conseguem compreendê-las, uma vez que sua razão ainda está em formação. Entretanto, pareceu-me que aquele pai só queria seguir adiante com o seu dia, sem dar maiores explicações sobre o ocorrido.  Foi o caminho mais fácil, mas não o mais adequado, já que aquele argumento não correspondia à verdade e poderia fazer surgir na mente da criança a ideia de que coisas sem lógica simplesmente acontecem.

A frase continuou me incomodando… “A lagarta virou borboleta”.

As reflexões me fizeram recordar o que vivo, com certa frequência, com os meus alunos. Como dou aulas de escrita, às vezes recebo reclamações de que não estão conseguindo escrever um texto de um dia para o outro. A “lagarta” – ou seja, a ideia que estava na mente do aluno – ainda não virou “borboleta” – o texto finalizado.

Tudo tem seu tempo

Essa experiência me fez refletir sobre o que estou aprendendo com a Logosofia: tudo na vida segue um processo e demanda tempo para acontecer. Lagartas não viram borboletas em dois segundos. Na vida das crianças (e também na dos adultos), considerar que isso seria possível é contrário à Lei Universal da Lógica — e, quando se contrariam as leis, há consequências. 

Quando nós, adultos, ficamos impacientes diante de algo que demanda tempo, não estamos agindo de acordo com a lógica. Da mesma forma, quando ensinamos às crianças que coisas ilógicas podem acontecer, como uma lagarta virar borboleta em um segundo, estaremos criando imagens que, mais tarde, poderão se manifestar em incompreensões ou sofrimentos.

Reconheci que as tarefas dos meus alunos demandam mais tempo, mais prazo, para que sejam bem realizadas. Assim, pude auxiliá-los a entenderem a importância de planejarem cada etapa do processo de execução da tarefa, para que, com paciência e empenho, chegassem à “fase da borboleta”. 

Certamente, a última fase é muito bonita. Todos querem concluir uma etapa, finalizar um texto. Mas essa fase não poderá existir se, por uma decorrência lógica, as anteriores não existirem. 

Formar esse “casulo” leva tempo e atuar contra a lógica impede o bom  aproveitamento desse mesmo tempo, pois, enquanto poderíamos estar trabalhando com eficiência, imaginamos que já somos borboletas…

É inútil pensar, porque se perderia o tempo, que as coisas haveriam de ser de modo diferente do disposto pelas leis da lógica. Convém, portanto, viver o mais próximo possível da realidade e fazer com que ela impere em todas as circunstâncias de nosso pensamento. Ao referir-me aqui ao pensamento de forma tão singular, quis significar o pensamento que deve atuar em cada circunstância, como intermediário direto de nossa razão e de nosso sentir, ante o pensamento ou os pensamentos que atuem como elementos causais da situação que se apresente ou contrários a ela.
Introdução ao Conhecimento Logosófico

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