Quando meu filho tinha cerca de três anos, sua tia lhe fez uma pergunta que os adultos costumam considerar profunda:
— O que você quer ser quando crescer?
Ele, sem interromper sua importante atividade de comer um biscoito, respondeu com a serenidade de quem já havia resolvido a questão:
— Quero continuar sendo o João.
A resposta veio tão espontânea e convicta que, por um instante, todos ficamos em silêncio.
A simplicidade daquela resposta permaneceu comigo, e foram surgindo muitas reflexões dentro de mim:
Quantas vezes ao longo da vida nos afastamos de nossa essência para atender expectativas alheias, seguir roteiros prontos ou perseguir imagens de sucesso que pouco dialogam com nossa verdadeira natureza?
O que realmente nos faz felizes? O que desperta nosso entusiasmo? Quais virtudes desejamos fortalecer? Que ideal superior orienta nossos passos?
Aquelas poucas palavras me conduziram a uma reflexão instigante: crescer não deveria significar afastar-se de si mesmo, mas aproximar-se cada vez mais daquilo que se é em potencial.
Penso que o verdadeiro crescimento consiste em abandonar aspectos negativos da própria psicologia e encontrar a própria individualidade, no intuito de cultivá-la, elevá-la e fazê-la florescer.
Ser sempre, e cada vez mais, a melhor versão de nós mesmos.
Quando nos desconectamos de nossa individualidade, algo em nosso mundo interno perde cor. Os pensamentos tornam-se confusos, os propósitos enfraquecem e a vida passa a ser vivida mais por inércia do que por convicção. Como um jardim abandonado, a alma deixa de produzir flores e passa a ser ocupada pelas ervas espontâneas do desalento, da dispersão e da insatisfação.
E o que acontece dentro inevitavelmente se reflete fora. Afinal, raramente conseguimos iluminar o mundo externo quando as janelas da própria consciência permanecem fechadas.
Não se trata de voltar a ser quem éramos, mas de nos tornarmos quem podemos ser.
Ao longo desse processo de busca pela evolução consciente, pelo aperfeiçoamento e pela superação, percebi em mim o reaparecimento de valores que pareciam adormecidos: a espontaneidade, o entusiasmo, a criatividade, a capacidade de escutar com atenção genuína e de observar com mais profundidade.
O conhecimento e o autoconhecimento são forças com alto poder de construção e transformação humanas. Cabe a nós termos discernimento para empregá-los a serviço do bem, do aprendizado e da evolução, ou para alimentar conflitos, ilusões e sofrimentos desnecessários.
A escolha, em grande medida, permanece em nossas mãos. Talvez por isso a resposta do João continue ecoando dentro de mim.
É importante cultivar o respeito por tudo de bom que já mora dentro de nós, pela criança que fomos, e conservar o que temos de mais autêntico, de melhor: nossas virtudes, nossos valores, enquanto aprimoramos continuamente aquilo que podemos ser.
Continuar sendo o João.
Continuar sendo eu.
Mas ambos, a cada dia, melhores do que ontem.
E, afinal, o que você quer ser quando crescer?
