Este ano, a Venezuela, país onde moro, foi sacudida por um duplo terremoto de alto grau de intensidade e complexidade, um fenômeno sem precedentes que ultrapassou qualquer imaginação. Prédios que desconsideraram as normas técnicas de construção e até mesmo aqueles que as seguiram, desabaram ou ficaram estruturalmente comprometidos, deixando marcas profundas: mortes, vítimas e pessoas desaparecidas.
Viver e observar o triste cenário de famílias atingidas, além de grandes estruturas físicas desabando, fez-me refletir não apenas sobre a fragilidade daquilo que construímos externamente, mas também sobre as estruturas que edificamos dentro de nós.
Assim como a terra firme treme, nossa mente também enfrenta seus próprios sismos. São os pensamentos negativos, as deficiências da nossa psicologia, as reações, as perdas, as contrariedades e os conflitos que testam a solidez do que guardamos no coração. Quando não temos controle sobre os nossos próprios pensamentos, ficamos à mercê de correntes externas, de opiniões alheias e de reações impulsivas que abalam a nossa estabilidade emocional.
Dias após o ocorrido, vivi uma experiência com familiares muito queridos, relacionada a uma profunda divergência de pontos de vista. Em outros tempos, essa situação teria sido o estopim para um “terremoto interno” em mim: uma discussão estéril, cheia de tensões e mágoas. No entanto, decidi aplicar um recurso que venho cultivando com muito empenho: a flexibilidade e a tolerância para reconhecer a razão do outro. É algo que venho aprendendo com o estudo e a prática da Logosofia em minha vida.
Em vez de contra-atacar ou tentar impor a minha visão, escolhi acolher e respeitar o ponto de vista deles, sem precisar anular o meu. Essa mudança de atitude transformou o que poderia ser um embate em um momento de respeito mútuo e, acima de tudo, trouxe-me uma paz profunda. Percebi que a verdadeira fortaleza não está em vencer uma discussão, mas em manter a harmonia no próprio íntimo, assim como cultivar a gratidão pelos seres que fazem parte da minha vida e a quem me cabe honrar.
Olhar ao redor e ver tantas mentes navegando na incompreensão, comoveu-me. Muitas vezes, a humanidade chora pelas perdas materiais e humanas, o que é perfeitamente legítimo; porém, esquece-se de olhar para as vítimas dos terremotos da alma, causados pela falta de recursos internos para governar a própria vida, diante do vazio espiritual que conduz à inércia.
Para superar a decadência de velhos hábitos de convivência, venho realizando um processo de aperfeiçoamento individual. Estou aprendendo a extrair o valor de cada experiência, por meio da vigilância sobre as oscilações do temperamento e da transformação do erro em acerto. É uma prática diária e consciente que permite construir uma “unidade interna”: um refúgio de serenidade e bom senso que não se deixa abalar por tempestades externas nem internas.
A reconstrução de uma sociedade e de uma humanidade melhores começa, sem dúvida, pela edificação desse novo mundo que construímos dentro de nós, no dia a dia. Ao forjarmos bases sólidas, fundamentadas no respeito e no amor, criamos alicerces sólidos e permanentes: uma boa construção sobre a terra mental da nossa vida!
E nos tornamos mais preparados, não apenas para resistir aos abalos da vida, mas também para estender a mão aos seres ao nosso redor e, juntos, transformar adversidades em oportunidades de triunfo, convivendo de forma serena e feliz.