Certa vez, uma pessoa comentou com meu chefe e meus colegas que ninguém gostaria de ser o advogado do outro lado da mesa em uma causa contra mim.
Quando me contaram quem havia falado isso, fiquei pensando no que a pessoa teria querido dizer. Seria porque eu era brava? Agressiva? Impulsiva? Ou porque fazia bem o meu trabalho?
Perguntei a eles o que eles achavam que isso significava, e me disseram que, com certeza, era a última opção. Ainda assim, fiquei reflexiva.
Várias recordações vieram à minha mente da época em que eu estudava com essa pessoa.
Eu havia decidido que não era capaz de ser advogada. Mesmo sendo formada em uma instituição renomada, já com o mestrado concluído e a caminho do doutorado, as experiências que vivi na advocacia me indicavam que eu precisaria fazer uma escolha: ser alguém melhor ou ser advogada. Difícil, não é mesmo?
As atividades diárias da profissão me colocavam em um nível de estresse que me levou a decidir que me tornaria professora, desistindo da advocacia.
Nesse meio tempo, passei a estudar mais intensamente um conceito essencial da Logosofia: o de deficiências psicológicas, que são pensamentos negativos que atuam dentro de nós. Observei que alguns desses pensamentos chegavam a me impedir de atuar na profissão que havia escolhido.
E precisei tomar uma decisão: a de agir conforme a Logosofia me ensina, procurando realizar acertos e cultivando em minha mente bons pensamentos, que recebem o nome de “antideficiências.”
Diante das situações em que me via intolerante, trabalhava em mim a tolerância. Quando percebia a irritabilidade, buscava cultivar a temperança. Para a rigidez, procurava viver momentos em que pudesse exercitar a flexibilidade.
Um dos pensamentos que escolhi cultivar conscientemente foi o da contenção. Observava que tinha um forte impulso de comentar notícias, fatos e coisas que aconteciam ao meu redor. Queria dar a minha opinião a respeito de tudo, e isso costumava acontecer de forma impulsiva.
Isso fazia com que eu agisse fora de hora, sem medida, sem dominar minhas reações, fossem elas positivas ou negativas. Essa característica de impulsividade aparecia nas aulas, nos debates e também na vida pessoal. E ela estava lá desde a infância – um tio chegou a me apelidar de “onça-pintada”.
Mas acontecia o seguinte: na área da advocacia, o profissional que agia de maneira impulsiva e agressiva, como a onça, recebia elogios. Então, aquilo que era um defeito acabava parecendo uma qualidade. Eu, porém, sabia que as consequências da atuação desse pensamento não eram boas: meu ânimo ficava alterado. Eu remoía as discussões, pensava em argumentos melhores e esperava pelos momentos em que poderia revidar alguma observação. Isso não me fazia bem.
Então, precisei me afastar desse ambiente para trabalhar a contenção, para a qual criei até uma expressão engraçada: meu “compromisso anti-tretas”.
Sempre que me via diante de uma situação na qual minha tendência era ser impulsiva e responder prontamente, sem pensar, essa expressão vinha à minha mente e eu me segurava. Era o treino da contenção, que precisei fazer por muitos anos, até cumprir os passos que a Logosofia institui como método para combater as deficiências psicológicas.
De acordo com esse método, primeiro é necessário conhecer o pensamento negativo que está atuando em nossa mente. Depois, bloqueá-lo, que é justamente o papel da contenção. Com esses bloqueios sucessivos, o próximo passo é debilitar o pensamento, fazendo com que ele perca força, até chegar ao último passo: anular a impulsividade.
Com a Logosofia, tenho aprendido que as coisas vão do pequeno ao grande. Primeiro, tenho a oportunidade de mudar de estado; depois, de modalidade; e, por fim, de caráter.
Ao ouvir dos meus colegas aquela frase, de que aquele advogado não queria estar sentado do outro lado da minha mesa, ou seja, representando a parte contrária à minha, pensei na oportunidade que tive de mudar de estado, de modalidade e de caráter.
O que eu ainda não sabia é que essa mudança me permitiria não ter que escolher entre ser advogada ou ser melhor.
Livre do controle da impulsividade, as atividades advocatícias deixaram de influenciar meu ânimo como antes, e então, pude retornar à profissão que exerço até hoje.
Fui descobrindo, assim, que não precisava mais escolher: podia ser melhor e ser advogada. Isso me permite viver de forma mais feliz, equilibrada e, sobretudo, anti-tretas.
