Quanto você pagaria por um pedregulho chamado kimberlito? E se esse “pedregulho” fosse, na verdade, um grupo complexo de rochas conhecido principalmente por ser a principal rocha matriz e o veículo de transporte dos diamantes naturais até a superfície da Terra?
O que seria necessário para calcular o valor exato dessa pedra em seu estado bruto? E para fazer com que ela valesse ainda mais?
Entendo que seria necessário contar com a ajuda de especialistas: o primeiro, com conhecimento para reconhecer e calcular o valor da pedra; o segundo, com conhecimento para extrair dela o diamante, lapidá-lo e fazer com que ele resplandecesse.
Há alguns anos, eu estava estacionando o carro na garagem do escritório onde trabalhava. Por um descuido, acabei esbarrando em outro veículo. Eu estava sozinho naquele local: não havia mais ninguém na garagem. Meu carro estava praticamente intacto; o outro carro, todavia, estava amassado.
Depois de uma luta interna, resolvi subir ao meu escritório, pegar meu cartão de visitas e descer à portaria para tentar descobrir quem era o dono do carro. Como essa garagem ficava no pilotis do prédio e a pessoa necessariamente teria que passar pela portaria para ir embora, minha intenção era deixar o cartão com o porteiro, para que ele pudesse entregá-lo ao dono do carro.
Para minha surpresa, quando falei com o porteiro, ele perguntou: “O carro é aquele que está saindo agora?” Saí correndo e acenando com os braços para tentar parar o carro. Pedi que o dono descesse e verificasse se o amassado já existia, e ele confirmou que não. Expliquei o ocorrido e me dispus a reparar o dano.
Descobri logo depois que aquela pessoa não trabalhava no prédio; tinha ido apenas entregar um documento e talvez nunca descobrisse como seu carro havia sido amassado. Ele ficou feliz com a minha conduta. Liguei para a seguradora e, ao sair do escritório para fazer a vistoria nos carros, ele disse à nossa secretária: “Olha, se um dia quiserem demitir esse rapaz, não deixe. Hoje em dia é difícil encontrar alguém no mundo com valores assim!”
Apesar do incidente, fiquei extremamente feliz depois que consegui entender o que havia ocorrido. Eu havia vencido a luta com aquele pensamento. Eu havia sido coerente com o meu propósito de ser melhor.
Resolvi tirar minha carteira de moto e, quando marquei o exame prático, veio a pandemia. Só depois de alguns meses é que o Detran adotou um protocolo de segurança e voltou a marcar os exames. Fiquei, portanto, mais tempo do que deveria sem treinar. Marquei algumas aulas para relembrar e fui fazer a prova.
Para quem não sabe, a prova de moto não é feita na rua, mas em um circuito fechado, em que todas as voltas são exatamente iguais. Ou seja, depois que se aprende como fazer o circuito, já se está preparado para a prova.
No dia, foi como se reencontrasse aquele menino que fui aos 18 anos, que só tirou a carteira de carro na terceira tentativa e que fez a primeira prova com tanto medo de não passar que errou tudo, mesmo estando preparado.
Mas, apesar do medo, fui.
Cheguei ao final do circuito, mas não passei. Perdi quatro pontos e só poderia ter perdido três. A tensão foi tanta que nem consegui identificar onde errei, mesmo tendo sido abordado pelos avaliadores a cada erro, já que eles precisam anotar na ficha os pontos perdidos.
Não tinha jeito: eu precisava ser valente para viver aquela experiência novamente. Tratei, então, de mudar por completo minha postura interna. Marquei mais algumas aulas e passei a prestar atenção em cada um dos detalhes, a ponto de conseguir, depois, refazer a prova mentalmente, mesmo fora da pista.
Se o erro começa na mente, como tenho aprendido ao estudar Logosofia, era ali que deveria trabalhar para extirpá-lo. Fui reafirmando para mim mesmo que era capaz e construindo a segurança necessária, vinda do acerto.
Quando chegou o dia do exame, eu estava preparado e seguro, tão certo de que só dependia de mim provar que era capaz. Surgiu uma alegria serena em meu interno, que foi aumentando a cada movimento bem executado. Certamente, a segurança com que conduzia a moto foi percebida pelos avaliadores, que não me pararam nenhuma vez, e consegui tirar minha carteira.
Ouvi de um amigo: “É muito fácil confiar em si mesmo quando tudo está bem. Mas, diante de uma dificuldade, como manter a confiança, a valentia e o valor?”
O valor e a valentia são elementos essenciais para viver as lutas que a vida apresenta.
Sou advogado. Em determinado momento de minha carreira, abri meu próprio escritório. Eu e meu sócio, que também é um estudioso de Logosofia, deixamos nossos empregos no início de 2019 e saímos para desbravar essa nova empreitada, tendo um terceiro sócio conosco.
Havia um certo temor de que pudesse dar errado. Afinal de contas, eu havia deixado de ganhar aquele salário fixo para passar a usar minhas economias para viver. Houve, porém, a valentia de dar os primeiros passos apesar desse temor.
O início foi muito difícil. Passamos muito tempo sem conseguir captar clientes para o escritório. E, quando tudo começava a entrar nos eixos, observamos que não poderíamos seguir com o terceiro sócio. Foi necessário negociar a saída dele, dedicar muito tempo à busca de um novo lugar para nos estabelecermos e reorganizar os planos.
Hoje, o escritório possui 12 funcionários, e consegui seguir valente, confiante e com o propósito de ser melhor como ser humano por meio do conhecimento logosófico, apesar das lutas e dificuldades que fazem parte da vida.
