Comportamento

Voos que atravessam a alma

setembro de 2026 - 3 min de leitura
Comportamento

Voos que atravessam a alma

setembro de 2026 - 3 min de leitura

 Outro dia, enquanto levava meu filho para a escola, um belo gavião cruzou o céu bem à nossa frente. A ave deslizava majestosamente sobre as correntes de ar, como se desenhasse caminhos invisíveis no azul da manhã.

Encantado com a cena, ele perguntou:

— Mamãe, você gosta de pássaros?

Pensei por um instante e respondi:

— Não diria exatamente que gosto, mas os considero seres muito interessantes.

A resposta pareceu insuficiente para sua curiosidade, e a conversa continuou naturalmente.

— Pois eu gosto — disse ele. — Gosto de observar as cores dos pássaros e ouvir seus cantos.

Enquanto o escutava, percebi que aquele pequeno observador enxergava detalhes que muitas vezes passavam despercebidos ao meu olhar desatento; aquele olhar tocava a minha  sensibilidade. A vida, às vezes, fala conosco através de vozes inesperadas.

Então, acrescentei:

— Sabe o que mais admiro nos pássaros, meu filho? O fato de poderem voar.

Mas, com a rapidez característica de uma mente infantil, ele prontamente manifestou:

— Nós também podemos voar, mamãe. De avião, de helicóptero…

Sorri diante da observação tão lógica quanto verdadeira.

— Concordo com você em parte — respondi. — Podemos voar nesses meios de transporte, mas é um voo passivo. Mesmo tendo sido criados por humanos, são as máquinas que nos sustentam no ar. Os pássaros, porém, voam com as próprias asas.

Fiz uma breve pausa e continuei:

— E nós também podemos desenvolver nossas próprias asas, ainda que invisíveis. Voamos quando aprendemos a pensar por nós mesmos. Voamos quando observamos a vida com atenção. Voamos quando sentimos com profundidade, quando ampliamos a compreensão e quando assumimos a direção consciente dos nossos atos.

Meu filho permaneceu em silêncio por alguns segundos, talvez tentando alcançar, com sua imaginação, aquelas asas que não se veem.

Enquanto seguíamos pela estrada, ocorreu-me que às vezes atravessamos a existência como passageiros, sendo conduzidos pelas circunstâncias, pelas opiniões alheias ou pelos impulsos do momento. E, em certas ocasiões, nossas limitações nos impedem de perceber que a maior liberdade concedida ao ser humano não está em percorrer grandes distâncias, mas em desenvolver a capacidade de governar a própria vida.

Os pássaros dependem de suas asas para cruzar os céus.

Nós dependemos dos pensamentos, dos sentimentos e da consciência para alcançar horizontes mais elevados.

Talvez por isso a vida nos presenteie, vez ou outra, com um gavião riscando o céu numa manhã comum. Não apenas para que admiremos sua beleza, mas para que nos recordemos de uma verdade muitas vezes esquecida: todos nascemos com a possibilidade de voar, mas as asas interiores precisam ser cultivadas.

E essa é uma das mais belas tarefas da existência.

Os pássaros voam porque possuem asas. O ser humano voa quando aprende a usar a liberdade de pensar, sentir e conduzir conscientemente a própria vida.

Há voos que atravessam os céus e voos que atravessam a alma. Os primeiros dependem de asas; os segundos, da consciência.

Que formosa soa ao ouvido a palavra liberdade! Não poderia ser de outra maneira! Sem dúvida, trata-se do mais sagrado e precioso de nossos bens. Quem atenta contra ela, atenta, em verdade, contra os mais caros sentimentos humanos: o amor e o respeito que devemos a nós mesmos e a nossos semelhantes.

Um pensamento de

 Jane Elisabete de Faria Lemos
Jane Elisabete de Faria Lemos nasceu em Itaúna-MG, casada, mãe de um filho. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de Itaúna, técnica em Metalurgia pelo SENAI, empreende nos dias atuais em atividades no meio rural, entusiasta das escritas e tem ampla atuação no terceiro setor. Estudante no Centro de Estudos Logosóficos de Divinópolis- MG (residente Itaúna-MG), desde abril de 2023.

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