O que faz o ser humano mais livre?
Certa vez, durante a apresentação de uma palestra, eu disse que escolheria uma pessoa da plateia para responder a uma pergunta que havia feito.
Eu arrisco a dizer que alguns sentiram o coração acelerar, outros a mão suar, alguns podem ter até pensado: “Para que eu fui aceitar o convite para participar desta atividade?”
Algo muito interessante pode ter acontecido quando eu fiz essa proposta de convidar alguém para falar em público.
No campo físico, material, que podemos observar com os nossos olhos, praticamente nada mudou, não é mesmo?
A disposição das cadeiras permaneceu a mesma, a temperatura do auditório não mudou, cada um permaneceu em seu lugar, ninguém saiu do auditório, mas, mesmo não ocorrendo uma mudança no campo físico, algo dentro de nós pode ter sofrido uma transformação: um estado antes calmo, diante da expectativa de ser escolhido para falar em público, pode ter ter dado lugar a um estado interno de agitação, ansiedade e apreensão.
Essas mudanças que acontecem dentro de nós mesmos, me fazem pensar em como podemos, em um mesmo dia, estar alegres e, em outro momento, ansiosos. De repente, uma boa notícia faz com que fiquemos felizes e estimulados, mas, pouco depois, pode surgir uma falta de esperança ou a sensação de que há algo de errado conosco ou com o caminho que estamos trilhando, seja na faculdade, no trabalho ou nos relacionamentos.
Por que isso acontece?
Qual é a relação disso que falei com o tema da liberdade?
Quando eu tinha cerca de 14 anos, vivi uma experiência que me marcou bastante. Eu havia ido a uma apresentação no colégio, sabe aquelas apresentações das quais os pais também participam? Era exatamente uma dessas. Ao todo, devia ter umas 100 pessoas.
Na primeira fileira do auditório, eu e alguns amigos estávamos sentados, escutando o professor contar sobre o que tinha sido realizado naquela etapa, os avanços das turmas, entre outras coisas. De repente, o professor fez o mesmo movimento que propus quando coordenei a palestra. Ele disse: “Agora vou escolher um aluno para compartilhar o que aprendeu nessa etapa”. E começou a olhar aluno por aluno da primeira fileira.
Eu me lembro que minha mão começou a suar, abaixei a cabeça (parece que é o mecanismo de fuga diante de uma situação dessas) e fiquei imóvel.
Você tem um palpite de quem ele escolheu?
Não, não fui eu! Parece que o mecanismo de fuga funcionou naquele dia. O professor escolheu uma amiga minha. Ela logo se levantou, pegou o microfone, olhou para todos e começou a falar sobre o que tinha aprendido.
Naquele momento, depois de ter sentido um grande alívio por não ter sido escolhido, pensei, enquanto observava a aluna falar, foi: “Uau! Quanta valentia ela demonstrou e com quanta liberdade está se expressando!”
O panorama era: de um lado, eu sofrendo com a possibilidade de ser escolhido para falar em público, imaginando que tudo daria errado e que seria julgado; do outro, essa amiga, confortável com a situação, compartilhando livremente suas experiências daquela etapa.
Essa experiência vivida na adolescência fez com que a seguinte pergunta surgisse dentro de mim: sou verdadeiramente livre?
Pude comprovar que não. Tudo o que tenho de imperfeito me torna um ser humano menos livre.
E, nesse caso, o defeito – ou, como o autor da Logosofia ensina, a deficiência psicológica – que eu deveria eliminar era a timidez.
Fiz uma descoberta importante: as deficiências psicológicas limitam a atuação da minha liberdade.
Mas o que são essas deficiências psicológicas, como, por exemplo, a timidez? E como superar essas falhas? É possível?
Um conceito original que a Logosofia me apresentou e que tem me ajudado na busca por essas respostas é o conceito de pensamento.
Tenho aprendido, com o estudo logosófico, que em minha mente existem vários pensamentos e que eles são os responsáveis pelas “flutuações” internas que vivo durante o dia.
Se não tenho conhecimento, controle e domínio sobre esses pensamentos que entram e saem da minha mente, sou como um barco à deriva no oceano: sou levado para onde eles querem que eu vá, sejam eles bons ou não.
Estou descobrindo que alguns pensamentos têm tanta força dentro da minha mente que conseguem até mesmo se sobrepor à minha própria vontade, como o pensamento negativo da timidez.
Se hoje sou capaz de coordenar uma palestra com a mesma naturalidade com que aquela minha amiga teve na experiência que vivi na adolescência, estou certo de que isso é resultado desse estudo em minha vida, que tem me auxiliado neste processo de autoconhecimento e superação. Assim, tenho me tornado um ser humano mais livre e feliz.
