Quando defendi minha tese de doutorado, um dos componentes da banca examinadora iniciou sua avaliação com elogios a uma citação que estava nos agradecimentos de meu trabalho: “O valor da ciência reside no bem que faz”, do autor da Logosofia.
Depois da defesa, não tive oportunidade de conversar com o examinador sobre a citação acima. Sua área de pesquisa era abstrata e seus estudos não necessariamente resultariam em aplicações futuras. Mas, para ele, a ciência tinha valor pelo bem que ela fazia. Foi isso que chamou sua atenção. A princípio, pensei que o membro da banca estivesse se referindo às várias descobertas científicas que trouxeram progressos, melhorias na qualidade de vida e mais conforto para parte da humanidade.
Por outro lado, nem todas as aplicações das ciências resultam em algo considerado bom, o que não invalida os conhecimentos fundamentais que a sustentam. Quem em sã consciência não critica o mau uso da energia nuclear em guerras? Em compensação, a aplicação desse mesmo tipo de energia na medicina, ao salvar vidas, tem trazido muitos benefícios aos seres humanos.
Como então decidir o valor da ciência, se ela pode fazer o bem e também o mal? Não é uma questão simples e envolve muitos fatores, mas um deles se refere diretamente ao indivíduo e se vincula à sua postura ética e às escolhas que faz. Não importa se ele é quem estuda uma ciência, desenvolve suas aplicações ou simplesmente a utiliza na vida. Quem dá valor às coisas grandes ou pequenas somos nós, sejamos cientistas ou não.
Eu conhecia a história pessoal daquele examinador e penso ter compreendido por que a citação de González Pecotche, contida nos agradecimentos da tese, chamou sua atenção. Ele se dedicava profundamente à produção de livros em sua área de atuação. Parte deles era voltada ao ensino superior e outra à divulgação científica.
Eu sabia que sua preferência por escrever livros, em vez de outros tipos de produção acadêmica, se baseava na convicção de que, assim, faria um bem maior ao contribuir para formar novas gerações de profissionais e pesquisadores e tornar a ciência a que se dedicava mais acessível aos leigos, numa época em que poucos tinham essa preocupação.
Tenho refletido muito sobre esse episódio. Eu mesma havia me beneficiado ao estudar em livros daquele professor. Se ele tivesse feito outras escolhas, talvez tivesse realizado mais descobertas na ciência em que atuava. Talento não lhe faltava. No entanto, preferiu seguir o chamamento interno da própria consciência, que lhe indicava outro caminho para fazer o bem em sua vida acadêmica. Compreendi que quem fez a escolha foi o ser humano que havia dentro daquele profissional.
Lembro-me de que, quando escrevi os agradecimentos da tese, eu queria escolher uma citação que valorizasse aquela conquista tão significativa para a minha vida. Não podia separar meu trabalho de meus afetos, representados por minha família, amigos, alunos e colaboradores. Todos contribuíram com porções de bem, vinculadas a conhecimentos, sentimentos, experiências, conselhos e incentivos, que o engrandeceram e lhe deram um valor inestimável para mim.
Naquela ocasião, eu já me dedicava aos estudos de Logosofia. Um traço que distingue o conhecimento logosófico é a sua vinculação com o bem, com os reais valores do ser humano e a superação em todos os aspectos da vida. Não poderia ser diferente no campo da minha profissão. Ao escolher aquela citação, quis valorizar algo que estava nas entrelinhas da minha tese – a parte de bem que me inspirou a escrevê-la.