Iniciando a elaboração deste artigo, o primeiro movimento que surgiu na minha mente foi pesquisar sobre o comportamento das famílias ao longo da história e sua relação com os regimes políticos das nações. Entretanto, isso desviaria o meu ponto de interesse, e a probabilidade de eu me perder em meio a tanta informação seria grande.
Resolvi, então, levantar, com base no que venho experimentando ao longo da minha vida, referências, impressões, sensações, observações e constatações sobre o papel da família na formação política das gerações.
Clãs, feudos, interesses, proteção do patrimônio, heranças, casamentos por conveniência, nepotismo, brasões, dinastias, manipulação e alianças. A família é o ambiente onde se transmitem tradições, preceitos e regras sociais, religiosas, morais, comportamentais e políticas, muitas vezes sem a revisão de conceitos.
Nela vemos, em escala reduzida e rudimentar, esse mesmo universo de disputas, dissensões, preferências e conflitos entre parentes, motivados por heranças, interesses, atenção, amor e preferências. Vemos também familiares que procuram dar aos filhos tudo o que não tiveram, sem refletir se isso é realmente o melhor para eles.
Consultando minha filha, uma jovem cientista social, entendi que o modelo democrático das famílias se assemelha muito ao modelo descrito por Platão em sua República e com a democracia grega em seus primórdios, na qual os mais cultos, os mais ricos, os patriarcas e os filósofos eram aqueles que estabeleciam as bases da organização política e social.
Quando cheguei à Fundação Logosófica, aos 26 anos, sem jamais ter ouvido falar de Logosofia, fiquei impressionada com as famílias que encontrei e com sua relação com a Obra Logosófica, com os que nela ingressavam, com a forma como se relacionavam entre si e como educavam os filhos. Havia, efetivamente, algo novo: um conceito diferente de família que norteava esse campo de atuação.
O elemento que mais ressaltou em minhas observações foi a analogia da família a uma oficina insubstituível, onde tudo é matéria de aprendizado e ensaio, em um ambiente que deveria ser acolhedor, afetuoso e harmonioso. Tudo balizado pelo exemplo, tudo pensado para a formação de novos seres para a sociedade – humanistas e servidores da humanidade.
A família é o templo sagrado onde cada ser humano aprende, no amor a seus pais e irmãos, a amar a Deus e aos seus semelhantes e é, ao mesmo tempo, o ateliê insubstituível onde se forjam as bases humana. Carlos Bernardo González Pecotche
A postura democrática passa a ser uma consequência natural de tudo o que se vive, aprende e experimenta na família – um empreendimento que requer conhecimentos transcendentes, sentimentos elevados, visão de futuro, muita valentia e um sentido de irmandade espiritual, entre outros de mesma natureza.
Um ponto importante para encarar tal empreitada é que seus membros tenham o mesmo ideal superior, que para mim tem como elemento principal a vontade de superar-se. A disposição para o diálogo, a capacidade de observar o outro com a mesma boa vontade que se tem consigo, o sentimento de ajuda mútua e de querer o bem-estar geral são atitudes que podem ser desenvolvidas no ambiente familiar. Isso ajuda cada um de seus membros a ampliar sua atuação para outros campos da vida cotidiana.
Cada vez fica mais claro para mim que a formação democrática de uma pessoa se dá no seio de uma família que se compromete com o devido encaminhamento de seus membros, capacitando-os ao longo da infância, adolescência e juventude pelas mãos amorosas e firmes dos responsáveis. Trata-se de uma missão que não pode ser delegada a nenhuma outra instituição. Ela exige consciência, conhecimento, boa vontade, investimento em diferentes aspectos e, sobretudo, muito afeto. Afinal, as democracias precisam de seres que sintam o que pensam e pensem sobre o que sentem, que estejam voltadas para o futuro e dispostas a atuar em um vasto sistema de colaboração que beneficie a todos.