Família

Como me tornei uma melhor filha

abril de 2026 - 5 min de leitura
Família

Como me tornei uma melhor filha

abril de 2026 - 5 min de leitura

Da minha infância guardo doces recordações de uma vida simples, com a família muito presente e os vínculos afetivos bem estabelecidos. Porém, como ocorre em muitas famílias (talvez na maioria), a partir da adolescência a relação harmoniosa com meus pais, principalmente com a minha mãe, sofreu alguns abalos. Admito que houve momentos em que quis ter uma mãe melhor, será que ela também quis ter uma filha melhor?

Sempre nutri um imenso amor por meus pais, embora nem sempre tivesse consciência do valor desse sentimento. Deles recebi muito afeto, uma boa estrutura familiar, valores que fundamentaram a minha vida e apoio nos estudos, o que alicerçou minha vida profissional. As diferenças, causas de divergências surgidas na adolescência, infelizmente não passaram com ela e, atitudes de egoísmo, incompreensão, intolerância e outros comportamentos negativos de minha parte, por questões corriqueiras, promoveram desentendimentos e sofrimentos desnecessários. Vejo essa história se repetir em tantas famílias – por quê? Para quê? É possível evitá-las?  

Um dos grandes conhecimentos que venho aprendendo com a Logosofia é sobre a realidade dos pensamentos. Este conhecimento me faz comprovar que, apesar de invisíveis aos olhos físicos, eles são agentes com vida própria; podem ser próprios ou alheios, migrar de uma mente para outra e possuem a capacidade de alterar meu estado interno. Sem que eu perceba, afetam direta e indiretamente a convivência humana, ou seja, a minha convivência com as pessoas que me cercam, podendo inclusive comprometer a boa convivência familiar e com os amigos.

Ter maior domínio deste mundo mental requer esforço e muita observação voltados a si próprio – neste caso, voltados a mim mesma. Exemplifico por meio de uma situação simples vivenciada certa vez com minha mãe: disse a ela que estava aprendendo que uma das melhores “orações” que se pode praticar na vida é a boa conduta. Percebi que ela ouviu e acolheu bem o que eu expressei. 

          Porém, algum tempo depois, numa situação corriqueira em que discordamos sobre algo, a divergência gerou um pequeno conflito entre nós. Logo depois, adverti-me de que havia sido incoerente comigo mesma, pois não respeitei a posição da minha mãe e agi com intolerância. Constatei que não  havia praticado essa “oração” – a boa conduta – tampouco estava atenta ao movimento dos pensamentos.

         Como se faz isso, cultivar a serenidade, especialmente com os seres que nos são tão queridos? Se já sabia da realidade dos pensamentos, por que deixei que me levassem a um conflito? Compreendo que, devido à intimidade na convivência com familiares e amigos muito próximos, frequentemente se incorre nesses deslizes que ferem os sentimentos das pessoas que nos são caras.  

Nestes últimos anos, devido à idade avançada da minha mãe, passo períodos mais longos com ela e cultivo o propósito de pôr em prática muito do que aprendo com a Logosofia, resultando em uma transformação positiva nesta convivência, que se tornou harmoniosa e regida pelo afeto – que é a parte do amor feito consciência. Posso dizer que essa transformação se deve ao alcance de um grau de consciência interna, mantendo-me vigilante aos meus pensamentos e aos pensamentos que habitam ou se apoderam da mente dela, bem como ao cuidado com os sentimentos. 

Os recursos que venho aprendendo com a Logosofia – dentre eles o aumento exponencial da atenção, da observação, da reflexão, a criação de defesas mentais (sim, a mente é um território a ser defendido) e a prática da contenção – permitem que eu freie os pensamentos impulsivos e valorize e fortaleça os sentimentos. 

Os resultados colhidos sobre estes aspectos aumentam minha atenção quanto aos movimentos mentais, sobretudo aos pensamentos que me cercam, permitindo-me evitar cair em suas armadilhas,  uma vez que muitos possuem a característica de gerar conflitos. Não aceito mais essas provocações, com lucidez,  sabendo que causam mágoas, ressentimentos e fragilizam a boa convivência. 

E assim tem ocorrido a transformação nos ambientes mental e sensível, que repercute  em um viver mais consciente, com reflexo positivo na convivência. Desta experiência específica – dos períodos que desfruto da convivência direta com a minha mãe – tenho vencido estados internos negativos, como o mau humor e irritabilidade. Constato o quanto meus estados psicológicos refletem – como um espelho – nos estados psicológicos da minha mãe, sendo mais um aprendizado que adquiri com a ciência logosófica. As mentes dos idosos, assim como as  das crianças, são extremamente “contagiadas” pelas condições mentais e psicológicas dos ambientes em que se encontram e pelas pessoas que os cercam.

Apalpar a realidade dos pensamentos e flagrá-los no momento em que se apresentam, com a finalidade de alterar meu estado interno e ter o poder de contê-los é simplesmente fantástico. Na experiência com minha mãe, os resultados são muito gratificantes, pois a convivência transformou-se em algo especial, eternizo muitos destes momentos na minha consciência. Meu coração vibra quando vejo o resultado do tratamento paciente, tolerante e repleto de afeto transformar-se num brilho  intenso de amor refletido nos olhos da minha mãe – e as palavras aqui empregadas para descrever esse resultado estão aquém da realidade vivida no meu interno.

O autor da Logosofia ensina que os conflitos se produzem nas mentes pouco cultivadas . Eu estou aprendendo a cultivar minha mente com estes conhecimentos, que são de uma natureza transformadora para vida.  Sendo a Logosofia uma ciência experimental e prática, a vida tem sido um maravilhoso (mesmo nas situações difíceis) laboratório de estudos, experimentação e mais estudos e experimentação, onde também ocorrem erros, mas sem desistir do objetivo: o acerto, que me leva ao aperfeiçoamento. 

Este é o relato de uma experiência simples, mas muito significativa para minha vida, na qual saio da posição de achar que sou merecedora de uma mãe melhor e passo para a posição de ser uma filha melhor. Sou grata por compreender tudo o que meus pais fizeram por seus filhos, pelo empenho que dedicaram e por todo esse aprendizado, que tem me possibilitado ser uma filha melhor e seguir aprendendo a cada dia.

 


Um pensamento de

 Nair Pauli
Nair Pauli é analista administrativa com graduação em administração e com MBA em desenvolvimento humano de gestores e em gestão escolar. É também estudiosa de Logosofia e docente na Fundação Logosófica de Curitiba, cidade onde atualmente reside.

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