Autoconhecimento

Aprendendo com a criança que fui

fevereiro de 2025 - 4 min de leitura
Autoconhecimento

Aprendendo com a criança que fui

fevereiro de 2025 - 4 min de leitura

As férias de verão são algumas das mais doces recordações da minha infância, que invoco com frequência para tornar mais leves os meus dias e nutrir a gratidão por tudo o que vivi ao lado de amigos e familiares que dividiam conosco aqueles dias na fazenda. Por vezes, um dos tantos episódios daquela época vem à tona, como que chamado por alguma circunstância ou movimentação interna que experimento. Com as lentes do conhecimento logosófico, tenho penetrado mais a fundo nas imagens que se imprimiram tão vivamente na tela mental da criança que fui. 

Certo dia, eu e parte da turma estávamos na varanda da casa, no nosso ritual diário de uma soneca e um dedo de prosa após o almoço. Dali, vi um familiar muito querido iniciar sua caminhada pelo amplo jardim rumo ao portão da casa. Observando que ele estava pronto para sair, coloquei-me de pé e, em meio a acenos e pulos, exclamei:

– Ei! O senhor vai sair? Eu posso ir também? … Aonde o senhor vai?… Ei…

Mesmo me ouvindo, ele não deteve sua caminhada e nem olhou para trás. Não passou despercebida aos maiores que me acompanhavam a turbação que afetou meu sentir, substituindo a espontaneidade da minha meninice por um olhar perplexo de incompreensão. Calmamente, alguém se aproximou e falou em meu ouvido:

– Deixa ele ir. Ele é assim, sempre foi; gosta de sair sozinho e sem dar satisfações a ninguém.

Sem alternativa, minha incipiente razão teve de aceitar aquela explicação.  Mas esse episódio permaneceu num lugar remoto dentro de mim, na penumbra, aguardando o conhecimento que faria dele um ensinamento.  

A adolescência chegou e deu contornos mais precisos e profundos a alguns traços da minha psicologia, revelando deficiências e virtudes. Eu tratava bem a todos, mas sentia a necessidade de ter momentos a sós em meu quarto. Pensava em muitas coisas, tinha grandes interrogações frente à vida, que muitas vezes me contentava em compartilhar com meu diário. Não era afeita aos trabalhos e estudos em grupo, não sabia esperar uma amiga para fazer uma atividade comigo. No meu tempo, do meu jeito, tudo fluía bem. 

Aos 19 anos, conheci a Logosofia, que, a cada estudo, emprestava os feixes luminosos de sua sabedoria para clarear as profundezas da vida que se passava dentro de mim sem que eu percebesse. 

Foi a tempo que tomei contato com o livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, que em um de seus trechos descreve:

O isolamento voluntário endurece os sentimentos do homem e trava as faculdades de sua inteligência. Faz com que viva na ilusão de um retiro psicológico que crê desfrutar sozinho, sem admitir que o acompanham em sua fuga pensamentos que o tornam estranho e intratável. Sobram razões para pensar que quem se empenha em viver isolado é, além de insociável, egoísta, pois não toma conhecimento das aflições e problemas da humanidade, em cujo contato está obrigado a viver por lei natural.(p. 81)

O estudo sobre a propensão ao isolamento fez desfilar dentro de mim uma profusão de imagens. Ao recordar daquele episódio da infância, compreendi que a conduta daquele familiar tinha como causa a falta de conhecimento e de domínio sobre este pensamento! Enterneci-me de gratidão pela oportunidade de rever a história de minha vida e por encontrar-me agora diante de parte da herança mental, moral e espiritual que aquele querido parente me havia transmitido. Dele certamente herdei muitos pensamentos de bem, mas era de se reconhecer que a propensão ao isolamento pulsava na encruzilhada de meu destino. 

Com o afã de quem desvenda mais um dos mistérios da existência, tomei nas mãos os livros logosóficos, a caneta e o papel, desdobrando minha aspiração de ser melhor em muitas reflexões sobre o que estava aprendendo e sobre como tinha me conduzido até então. Foi o início de uma grande jornada. 

Ao contemplar a expansão da minha vida na vida dos demais, e vice-versa, experimento a verdadeira sensação de existir e de unir todas as vidas como que em uma só — ampla, gigantesca. Se, por conta própria, eu poderia viver apenas as experiências individuais — e com isso reunir dez, vinte, talvez mais conhecimentos, unindo minha existência à dos meus semelhantes — , tenho desfrutado de muitos mais, acelerando minha evolução com o saber que conquistamos e compartilhamos entre nós. 

Sob a lente dos novos conhecimentos que tenho adquirido, a recordação das férias de verão dos tempos de criança ganha dentro de mim uma projeção ainda maior, porque dela extraio o valor da convivência humana  — que oferece a cada instante um motivo de estudo, investigação e conhecimento de si mesmo. 

Aquela menina faceira, ávida por unir sua vida a daqueles que lhes são queridos, constitui um poderoso estímulo para mim. Oxalá eu possa ser leal a ela, conquistando palmo a palmo os conhecimentos que a farão livre e reinante em minha vida!


Um pensamento de

 Ana Carolina Gundin
Ana Carolina Gundin de Freitas, 29 anos, casada, formada em Direito na UFG, pós-graduada em Direito Civil e Processual Civil, servidora pública do Superior Tribunal de Justiça, nascida em Niterói-RJ, residente em Goiânia. Estuda e é docente de Logosofia em Goiânia desde 2011.

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