Quantas vezes eu, como coordenadora escolar, recebi em minha sala alunos que haviam se desentendido e, ao olhar para eles, querendo saber o que havia ocorrido, frequentemente escutava a célebre frase: “A culpa não foi minha!” A partir dali tinha início uma nova e linda oportunidade de construir algo grande e permanente na vida daqueles alunos.
A adolescência é uma etapa rica e desafiadora do processo evolutivo do ser humano. É uma fase de descobertas e amadurecimento, em que o jovem começa a se perceber como indivíduo, a projetar as lutas da vida, buscando afirmar seu espaço no convívio com os outros. Nesse processo, surgem inevitavelmente os desafios da convivência: divergências, atritos, incompreensões e momentos de isolamento. Porém, quando bem orientada, essa convivência se transforma num espaço maravilhoso de aprendizado e superação. Daí o valor imenso da vida escolar e familiar, onde ele pode começar a ensaiar as bases de uma vida consciente.
Segundo a Pedagogia Logosófica, a convivência não é apenas um meio social, mas um campo experimental para conhecer a si mesmo. Cada relação, cada conflito e cada alegria vivida no contato com os demais oferece uma oportunidade de observar os próprios pensamentos e sentimentos, aprendendo a conhecê-los, cultivá-los e transformá-los. Essa observação, chamada de observação consciente, é o início da conquista de um maior domínio sobre si mesmo: o ponto em que o jovem começa a perceber que pode ser autor de sua própria conduta e não mero reagente às circunstâncias.
Na Pedagogia Logosófica, procuramos substituir a ideia de “culpa” pelo conceito de responsabilidade consciente. A culpa paralisa, atemoriza e reforça o erro; a responsabilidade liberta e conduz à superação. Quando o adolescente aprende a reconhecer o que sente e pensa, sem se condenar, ele começa a compreender o valor educativo de cada experiência. Assim, os erros deixam de ser um peso e se tornam uma oportunidade para o aperfeiçoamento.
Mas, para que essa aprendizagem aconteça, cabe ao educador — seja pai, mãe ou professor — ajudar o adolescente a dar esse passo. Para isso, é indispensável que ele próprio viva esses esforços de superação e de autoconhecimento. Ninguém pode conduzir o outro a um lugar que não conhece. O educador ensina, sobretudo, com o exemplo: pela serenidade com que lida com os conflitos, pela paciência diante das falhas e pela coerência entre o que diz e o que faz. A Pedagogia Logosófica ensina que o verdadeiro aprendizado só pode ocorrer na medida em que se realiza internamente. O educador é, antes de tudo, um ser em formação, que busca compreender e aperfeiçoar a si mesmo. Quando ele observa seus próprios pensamentos, vence suas limitações, reflete sobre suas reações e trabalha para corrigi-las, passa a irradiar aos jovens um exemplo vivo de coerência e realização.
Uma atitude assim cria um ambiente de confiança. O jovem sente que o adulto não fala “de cima”, mas caminha junto, compartilhando um ideal de aperfeiçoamento. A convivência deixa, então, de ser um campo de tensões e se transforma em uma escola de humanidade, onde cada um aprende a pensar por si, a compreender os demais, a fazer escolhas e a desejar para o outro o mesmo bem que busca para si.
Educar à luz da Pedagogia Logosófica é ajudar o jovem a conhecer a si mesmo para que possa orientar-se conscientemente. É inspirá-lo a observar seus pensamentos, a escolher quais quer cultivar e transformar suas experiências em sabedoria. Essa é uma tarefa elevada, que exige do educador uma constante renovação interna — mas é também o caminho mais fecundo para formar seres humanos capazes de construir um novo futuro para a humanidade.
