“Um, dois, três…”, disse o médico. O silêncio parecia durar uma eternidade após o ultrassom. Normalmente, recomenda-se contar até três quando se corre o risco de dizer algo imprudente.
Mas ele completou: “Parabéns! Em sete meses vocês serão pais de trigêmeos.”
A previsão era de noites interrompidas para alimentá-los e trocar fraldas. No carro, na volta do exame, o silêncio reinava. Eu olhava para minha esposa e para a barriga dela, ainda sem mudanças visíveis.
Quase quinze anos se passaram. Na volta da aula de esportes com um dos filhos, instalou-se novo silêncio no carro. Eu estava chateado com as respostas ríspidas que ele havia dado horas antes, apesar das inúmeras advertências. Parecia não lidar bem com as adversidades e acabava descontando nos mais próximos. Perguntei-me: seria o silêncio a forma mais inteligente de atuar?
Decidi falar. Compartilhei minha percepção sobre sua timidez. Algumas grosserias pareciam reações defensivas diante de pedidos que o deixavam acuado. Relatei como essa característica aparecia em gerações anteriores e os prejuízos que trazia. Contei o exemplo de um amigo que precisou ser valente para mudar uma situação profissional difícil, buscando mais tempo para a família. Cada geração precisa se superar.
Na sequência, buscamos outro filho em uma aula. Ele entrou no carro acompanhado de dois colegas, que se sentaram no banco de trás e começaram a comentar sobre as oportunidades que o irmão havia perdido. Ao meu lado, o primeiro filho sussurrou: “Pai, você acabou de me falar sobre a timidez.” Senti que havia conseguido ser discreto, prudente e oportuno.
Recordei algumas semanas antes, quando ensinava minhas filhas a dançar a dois. Elas erravam os passos e a dança não fluía. Eu repetia: “Dois para cá, dois para lá”.
Concluí que o mesmo ocorre no interior delas: assim como na dança, não nascem sabendo. O processo de aprendizado e desenvolvimento da razão é exigente e desgastante.
Lembrei dos ensinamentos de González Pecotche, criador da Logosofia, que afirma ser o homem um ser biopsicoespiritual. Quando bebês, meus filhos precisavam que eu levasse o alimento até eles. Hoje, abrem a geladeira sozinhos — e com que frequência! O físico está desenvolvido, mas o psicológico e o espiritual – mais sutis e complexos – exigem agora maior atenção.
Pecotche ensina que a maioria dos seres reage de forma desfavorável aos diversos desconfortos da vida por causa da suscetibilidade, sendo dominada por pensamentos que resultam em sofrimento, amargura e desencanto.
Diante disso, precisamos todos, – pais e filhos – transformar os desafios, das fraldas às valsas, em oportunidades de nos capacitar para conquistar paz, felicidade e sabedoria. Afinal, não viemos ao mundo para passar a vida apenas contando até três.
