Todo homem deveria aspirar a esclarecer o que a razão resiste a admitir como verdade. Por exemplo, as sustentadas afirmações sobre a existência de um inferno que condena os pecadores ao fogo eterno. Em que verdade essa afirmação se apoia? Pode arder o espírito, que é imaterial e, portanto, incombustível? Mas admitamos que sim; admitamos que o espírito possa queimar-se, que possa arder eternamente. Em tal caso, que consequência útil teria para a vida humana a condenação eterna do espírito ao fogo?... Até quando, senhores, até quando a humanidade terá de seguir aferrada a uma crença que carece de todo sentido instrutivo?! As faltas cometidas pelo homem não podem ser saldadas com um martírio interminável, com um suplício perpétuo. Não pode caber, pois, na imensa grandeza de Deus, tamanha crueldade; porém sim, pode caber naqueles que apregoam isso e atemorizam as pessoas com semelhante disparate. Deus não pode ter criado o prodigioso ser humano para aniquilá-lo depois inexplicavelmente. Isso implicaria a violação de leis expressas, destinadas a regular a evolução do homem; implicaria uma negação que a inteligência humana não pode absolutamente admitir. Deus criou o homem para que, por meio de todos os sacudimentos e experiências que acompanham sua passagem pelo mundo, ele aprenda a conduzir sua vida pela existência que lhe foi determinada e que, presumo, não tem fim. As faltas que cometer, ele mesmo, por sua única e exclusiva conta, poderá e haverá de saldá-las. Eis aí o prodígio da lei de evolução, a qual, conscientemente interpretada e vivida, converte o homem em seu próprio redentor. Poderia haver algo mais formoso, mais consolador e sublime para ele do que se sentir capaz de realizar, por si mesmo, uma tarefa tão edificante, cuja glória haverá também de pertencer-lhe? Isto não é melhor do que acumular falta sobre falta, confiando com fé cega — e em alguns casos com não pouca especulação — que alguém com poderes divinos possa nos absolver de culpas? Analisemos serenamente em qual dos dois casos o homem é mais digno de si, de seus semelhantes e de Quem o criou.
