Quando meu filho era pequeno, vivíamos muitas atividades prazerosas e construtivas, que eu conseguia pensar e realizar com ele. Guardo essas memórias com carinho e, ao revivê-las, percebo que foram momentos em que participei ativamente, planejando e colocando em prática cada atividade já pensando na importância que esses momentos teriam para construir um vínculo com meu filho, abrindo uma porta que poderia ser utilizada mais adiante. Com isso em mente, procurei dedicar-lhe todo o tempo que pude, consciente de que a infância passa rápido.
Gradualmente, e com toda a beleza que envolve o desenvolvimento do ser humano, meu filho foi crescendo, mudando e afastando-se do mundo infantil da mãe. Minhas histórias e propostas de atividades foram perdendo o interesse para ele, e ele começou a aproximar-se mais do mundo do pai. Vi essa mudança como algo positivo.
Ao mesmo tempo, seus assuntos passaram a não me interessar tanto. Quando ele começava a contar algo relativo a algum esporte ou a um jogo de videogame que estava jogando, minha mente, a partir de um certo ponto, começava a divagar. Ou então, mesmo que eu prestasse atenção, não entendia muita coisa. Na escola, ele quase nunca me pedia ajuda e, sendo tão discreto, quase não compartilhava o que vivia. Acabávamos, então, ficando sem um momento oportuno para conversar.
Naturalmente o vínculo que formamos na infância trabalhava a nosso favor, e o grande amor que sentimos um pelo outro também. Porém, pelo bem de nós dois, eu precisava de algo mais, necessitava que fosse ouvido o que falasse, que fosse conectado à vida dele e fizesse realmente diferença. Percebi que, se eu quisesse manter nosso vínculo e conseguir levar-lhe algum elemento importante para a vida, precisaria encontrar outros pontos de conexão.
Mas como poderia buscar essa ligação? Refleti que poderia fazer isso estando sempre disponível e tranquila, ouvindo-o com atenção, respeitando suas lutas internas naturais naquela fase, interessando-me verdadeiramente pelos assuntos dele, inclusive aprendendo um pouco sobre eles e colocando-me à disposição para poder ajudá-lo e acompanhá-lo em suas atividades. E assim tenho feito até hoje, com ele entrando na juventude: quando meu filho me procura para conversar, seja o que for que tenha a falar e seja o que for que eu esteja fazendo, eu paro. Se não tiver como parar de imediato, marco com ele algum outro momento.
Durante a adolescência, esses momentos em que me procurava eram, algumas vezes, de reação ou crítica, como é comum nessa idade. Nem sempre concordava com o que me dizia, mas procurava colocar-me no lugar dele e verbalizar minha concordância com os aspectos com os quais concordava ou consentia. Momentos assim nem sempre são os melhores para ajudarmos a buscar uma solução ou para dizer que o outro poderia ter atuado melhor. Os elementos de ajuda, às vezes, podem ser levados em outro momento, mais oportuno. Ou no finalzinho da conversa, se o ambiente assim permitir.
Uma vez, no início da adolescência, ele chegou chateado de uma aula especializada, mostrou uma redação em outro idioma e pediu-me que lesse. Eu li uma parte, e ele perguntou: – Você entendeu minha letra, né? Eu disse que sim e ele completou que, ao devolver a redação corrigida, a professora disse, diante de toda a turma, que ele tinha ganhado B na redação, porque ela havia considerado sua letra ilegível. Então prosseguiu: Lá no meu Colégio as professoras não costumam fazer isso. Elas chamam a atenção individualmente, não falam na frente de todos. E nenhum outro professor deixou de entender minha letra.
Depois de prosseguir um pouco com a conversa, pedi que olhasse a própria letra e perguntei se estava legível. Ele respondeu que sim e então perguntei: Mas a sua letra pode melhorar? Respondeu afirmativamente, mas que não seria necessário. Então eu disse que, quando recebemos uma crítica, podemos ficar chateados por um momento, mas, depois, o melhor mesmo é usar a observação recebida a nosso favor. Discernir qual parte é verdadeira e trabalhar para melhorar naquilo. Ninguém segura quem age assim, ponderei. E continuei: Por exemplo, você pode trabalhar sua letra para que ela fique ainda mais compreensível e até bonita. Isso é usar a crítica a seu favor para melhorar a si mesmo. Ofereci algumas dicas de caligrafia e procurei ser breve, porque também é preciso ter objetividade na ajuda.
Esse assunto ficou esquecido por um tempo, mas, um dia, em uma conversa, ele se recordou da experiência e manifestou que havia feito um esforço naquele ano, ficando muito atento para escrever com a letra mais legível e mais bonita. Fiquei feliz pelo resultado, pois, por analogia, essa experiência pode ser levada a outros campos de sua vida, em outros momentos.
Tenho aprendido com a Logosofia que quando tenho uma convicção como essa de que é importante cultivar e manter o vínculo e, a partir dessa convicção, faço um propósito de bem lícito e realizável, observo que fico mais atenta às oportunidades de atuação, podendo inclusive fazer um planejamento. Vou cumprindo etapas, com paciência, mesmo que haja avanços e retrocessos. Ainda que os avanços sejam pequenos, não deixo de me alegrar, porque sei que são parte de um plano mais amplo, para alcançar objetivos maiores para nossas vidas.
