Deus

A arca da minha herança passando de mão em mão

fevereiro de 2026 - 3 min de leitura
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A arca da minha herança passando de mão em mão

fevereiro de 2026 - 3 min de leitura

Não raro, pego-me pensando nas coisas que deixei de fazer ao longo da vida, no que hoje faria de forma diferente… Às vezes, então, bate uma nostalgia, como um quê de arrependimento.

Há alguns anos, circulou pela internet um texto atribuído ao célebre escritor argentino Jorge Luís Borges, no qual se retratava esse estado de descontentamento consigo mesmo. O autor, presumivelmente já velho, falava das muitas coisas que deixara de fazer e da, segundo sua tardia avaliação, excessiva seriedade com que vivera. Era taxativo: faria tudo diferente.

Já li ou ouvi de muitas celebridades exatamente o oposto: a tácita afirmação de que fariam tudo exatamente igual se lhes fosse dado recomeçar a vida.

Recentemente propusemos aos adolescentes que frequentam as atividades semanais em nossa sede da Fundação Logosófica que selecionassem fotos de quando eram crianças, buscando, por meio delas, recordar características que entendessem possuir desde então – sejam adquiridas dos pais ou outros adultos, sejam inatas – e que tivessem pautado positivamente suas vidas. O objetivo principal era compreender o mecanismo da Lei Universal de Herança, especialmente como podemos herdar de nós mesmos e o quanto isso pode ser ampliado quando buscamos conscientemente aperfeiçoar nossas características positivas e corrigir as negativas, capacitando-nos a aumentar os acertos e reduzir os erros. 

O criador da Logosofia ensina que aquilo que pretendemos ensinar deve ser respaldado pelo exemplo. Realizei também a experiência. Esbocei no powerpoint um slide com cinco fotos, cada uma representando uma etapa diferente da minha vida. Recordei a criança que fui, o adolescente e o jovem que a sucederam, passei pelo adulto que me tornei e cheguei ao sexagenário que sou hoje.

Foi uma grata oportunidade para refletir sobre como fui herdando de mim mesmo ao longo dos anos. Primeiro uma pequena arca que foi passando da criança ao adolescente, até alcançar o que sou hoje. Pude olhar para trás e fazer meu inventário de bens mentais, morais e espirituais, constatando muitos erros cometidos e muitos caminhos equivocados. 

Mas, vendo a foto do menino de calções curtos que fui, do adolescente de olhar assustado, do jovem de cabelo black power do adulto compenetrado, e, por fim, deste velhinho aqui de cabeça quase nua, não há como não render um tributo de gratidão a cada um deles que, na sua medida de esforço e de conhecimento, foi passando o bastão adiante e me trouxe ao que sou hoje.

Os erros cometidos, ensina-me a Ciência Logosófica, jamais poderão ser tributados a outrem ou simplesmente perdoados. Minha redenção, tenho compreendido, é, como exige o princípio básico de dignidade humana, é de minha inteira responsabilidade

Essa redenção começa aqui e agora, na medida em que evito cometer novos erros e busco transformar esta oportunidade de vida em um culto ao verdadeiro bem – um bem que floresça em estímulos para a minha própria existência, ao ponto de irradiar positivamente àqueles que estejam em minha órbita de atuação.

À sua indagação cabe responder da seguinte forma: o ser é uma sucessão de seres. Por conseguinte, de cada um depende que o ser de hoje não comprometa o de amanhã, criando-lhe problemas ou obrigando-o a enfrentar as situações que o primeiro não teve a valentia de enfrentar. Aquele que empenha com certa leviandade sua palavra ou seus bens, aquele que assina compromissos de cujos vencimentos o ser de amanhã deverá se responsabilizar, não criou para este os graves problemas ou dificuldades extremas a que você aludiu? Ocorre, geralmente, que se pensa egoisticamente no ser de hoje sem sequer se lembrar do de amanhã. Não obstante, há aqueles que, realizando dignos esforços, pensam neste último, para que esse ser de amanhã — que será ele mesmo — possa desfrutar uma situação folgada e feliz. Com eles não acontecem essas alterações de que você falou, porque são previdentes e não se atêm egoisticamente ao ser de hoje. Tudo isso ensina que, se em determinado momento se desfruta a felicidade, ela deve ser equitativamente repartida entre os seres que irão sucedendo ao de hoje, a fim de que haja continuidade e não contraste, evitando, ao mesmo tempo, que o sofrimento deste último alcance o ser de amanhã.

Um pensamento de

 Paulo Goiás
Paulo Goiás é casado e pai de uma filha. Quando chegou à Ciência Logosófica, ante as tentações do circunstancial e das conveniências com que nos acena o mundo corrente, temeu a orfandade dos valores ensinados pela mãe, que acabara de falecer. Em busca de novos horizontes para educação da filha, à época com um ano de idade, descobriu que precisava, antes de mais nada, conhecer a si mesmo e reeducar-se à luz de uma ampla revisão de conceitos, proposta pela Logosofia. No caminho que busca trilhar desde então, estreitando laços com os seres a sua volta, sente que se aproxima gradativamente de Deus.

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