Nada gravita mais sobre a vida do ser do que o estímulo, e nada se mostra mais esquivo às pretensões humanas.

O homem anda, por assim dizer, às tontas pelo mundo, como a nave que sulca os mares sem direção, como as nuvens que vagam pelo espaço. Salvo raras exceções, passa seus dias imerso na maior desorientação. É visto constantemente a se queixar de sua sorte, deprimido e até enfastiado com as diversões. Poderíamos dizer que ele não encontra na vida justificativa para sua existência. E se por momentos algo satisfaz seu espírito, saturando-o de felicidade, isso é só um instante em relação à distância que medeia entre o princípio e o fim de sua vida.

O desconhecido o atrai, uma vez que tudo é mistério para ele. Seu conhecimento é ínfimo, se comparado com toda a Sabedoria que o rodeia e que, por sua limitação, não percebe; inconscientemente, porém, experimenta uma necessidade íntima de penetrar e descobrir, para tranquilidade própria, tudo aquilo que seu entendimento não discerne, que nem sua razão nem sua inteligência podem julgar, e que por um desígnio natural excita e fustiga constantemente sua natureza, convidando-a a participar da vida universal que flui de toda a Criação; a essa vida o homem permanece alheio, desconhecendo-a e até menosprezando-a em sua total intemperança, como uma prova cabal e irrefutável de sua inconsciência.

Toda a desdita do ser humano provém, precisamente, da incapacidade para organizar a vida e encarar os problemas da existência como corresponde à hierarquia de seu gênero.

É notável observar que, sendo o estímulo o que instantaneamente produz um efeito edificante, a ponto de reavivar um entusiasmo incomum no indivíduo, este se preocupe tão pouco em aproximá-lo de si, para experimentar as saudáveis reações que proporciona à alma. Pode-se dizer que o estímulo é como que uma força viva que interpenetra* o ser e o satura de novas energias; mas poucos, muito poucos, são os que sabem aproveitar esta força viva e manter o máximo de tempo possível a reação benéfica do estímulo, conservando o entusiasmo que ele gera.

Quando o ser se sente animado pelos melhores anelos e empreende um labor que lhe resulta grato e propício à sua evolução, deve tratar de não desanimar em seus afãs, bem como de manter o ritmo de suas atividades, esforçando-se para que estas não decaiam ou se ressintam, a fim de não experimentar as consequências desfavoráveis da inércia mental, pois bem se sabe que ela traz consigo a indolência, o tédio e o abandono.

A atividade mental¹ deve representar para o ser humano o único campo favorável ao maior desenvolvimento de suas faculdades. A capacitação individual se obtém graças à intensidade da atividade e à perseverança nos objetivos. Temos, portanto, que a capacidade de produção será tanto maior quanto maior for o esforço e mais firme a vontade de produzir.

O conhecimento daquilo que cada um se propõe fazer é o que garante a eficácia das ações e o que assegura o êxito.

A atividade é sinal de um bom estado mental. Quando o homem trabalha, não há agitações mentais nocivas nem maus pensamentos. A ociosidade procria o vírus do inconformismo e gera as ideias mais estranhas ao sentir e à moral humana.

A atividade mental cria novas necessidades para a inteligência, e esta, por sua vez, estimulada pelos acertos da razão, expande suas luzes, atende e resolve as novas situações que se apresentam, permitindo uma atividade ainda mais intensa.

Todo labor construtivo do espírito gera estímulos que devem ser aproveitados para organizar de forma constante as energias internas. Entretanto, percebe-se na maioria das pessoas – e isto deve indubitavelmente ser atribuído à não posse dos conhecimentos básicos compreendidos no esquema da própria vida – que esses estímulos não são captados pelo entendimento, resultando disso, em muitos casos, uma diminuição do entusiasmo, um desânimo e até, pode-se dizer, uma desmoralização.

Geralmente se espera que os estímulos sejam propiciados por terceiros ou que a sorte – fator no qual tantos confiam ingenuamente – se encarregue de prodigalizá-los com inteira liberalidade. Isso implica, é claro, correr o risco de a pessoa se ver, algumas vezes, defraudada nas esperanças e ilusões.

O que essa maioria a que nos referimos não sabe – e dizemos que não sabe porque, se soubesse, já o teria posto em prática – é que é preciso criar os estímulos e saber como podemos nos servir deles para erguer a própria vida acima de toda adversidade, elevando-a até os confins mesmos da superação humana.

Criar estímulos para que eles constituam a fonte de energias mais fecundas, aí está o segredo. É necessário que a força flua permanentemente do interno, a fim de satisfazer às exigências do externo. O sono, por exemplo, pode reparar parte do cansaço ou das energias gastas durante as atividades do dia, porém não dota o ser de novas energias, sobretudo daquelas que inflamem de alegria e entusiasmo o espírito. O estímulo tem essa propriedade. É a vida que se resolve no próprio problema de sua existência.

Os estímulos têm sua dimensão e seu caráter, e ainda podem ser classificados em positivos e negativos.

O homem que trabalha e semeia o bem cerca-se de estímulos positivos; completamente contrário é o que ocorre com aquele que se comporta mal e tem como única ocupação o ócio, caso em que os estímulos são negativos. O empregado que se empenha no cumprimento de seu dever consegue de seus patrões o estímulo da compensação, em salário e posição hierárquica, como consegue o estudante ou o militar no que corresponde às respectivas carreiras. O afeto cria o estímulo do afeto e da simpatia; a honradez e a boa conduta do jovem ou da jovem cria o estímulo da confiança; a carta de amor, o da resposta; o labor do sábio, o da glória de seus descobrimentos.

Não deixa de ser lamentável observar até que grau tão alarmante as pessoas se desalentam e sofrem as penosas alternativas de sua volubilidade, por carecerem completamente de estímulos. São como a bateria de um automóvel velho que é necessário carregar com frequência para que ele siga rodando.

A Criação, sábia e perfeita, é a fonte suprema de todas as inspirações humanas. Ela mostra ao homem o poder dos estímulos, para que os use em benefício de sua própria evolução, mas, como isso não parece ser percebido, ele espera sempre dos demais o que não sabe oferecer a si mesmo.

A necessidade costuma ser, em todos os casos, o grande acicate que induz a criar estímulos, a fim de que sejam motivo de impulsos motores da vontade para encarar atividades antes evitadas por temor ao fracasso. Porém, como a vida é luta e a luta de modo algum significa pessimismo ou derrota, mas sim a própria vida cumprindo seu papel ante os fins da evolução, a ninguém deve surpreender que muitas vezes, nos momentos de premência e angústia, surjam perspectivas de estímulos que o homem não teria sido capaz de criar para si nos momentos de sossego.

Todo esforço fecundo sempre gera estímulos que fortalecem o ânimo e asseguram a solidez dos empenhos. É lamentável ver quantos são órfãos deles, solicitando-os constantemente para terem um incentivo em que depositar suas esperanças. Falta-lhes, precisamente, aquilo que podem encontrar em toda parte.

O abandono, a displicência, tão comuns na espécie dos usuários das calças e das saias, inibem a estes de poder desfrutar as delícias do otimismo fundado na razão dos acertos, que são, sem nenhuma sombra de dúvida, estímulos nada desprezíveis.

Uma atividade interrompida bruscamente pode malograr muitos estímulos e, até mesmo, o próprio processo da evolução em direção a um destino melhor.

A ofensa que uma pessoa dirige a outra cria um estímulo adverso, negativo, pois em vez de ter a virtude do estímulo positivo, que reanima o ser e o faz conceber dias mais felizes, deprime-o e entristece-o.

Os que seguem os estudos logosóficos terão podido facilmente descobrir a importância destes conhecimentos e quanto aliviam as aflições da inexperiência, saturando a alma de bem-estar.

Em várias outras publicações logosóficas existem ensinamentos de sumo valor que esclarecerão ainda mais o que foi tratado nestas linhas. Para finalizar, acrescentamos que o poder dos estímulos tem uma influência decisiva nas possibilidades humanas de superação integral.


Carlos Bernardo González Pecotche, também conhecido pelo pseudônimo Raumsol, foi um pensador e humanista argentino, criador da Fundação Logosófica e da Logosofia, ciência por ela difundida. Nasceu em Buenos Aires, em 11 de agosto de 1901 e faleceu em 4 de abril de 1963. Autor de uma vasta bibliografia, pronunciou também inúmeras conferências e aulas. Demonstra sua técnica pedagógica excepcional por meio do método original da Logosofia, que ensina a desvendar os grandes enigmas da vida humana e universal. O legado de sua obra abre o caminho para uma nova cultura e o advento de uma nova civilização que ele denominou “civilização do espírito”.