Qual teria sido o primeiro ofício praticado pelos que habitaram nosso planeta em remotas épocas?

Devido à incipiência dos entendimentos, parece que foi a pantomima. Os homens não possuíam ainda o uso da palavra articulada de modo inteligente, nem conheciam os nomes das coisas; porém, levados pelo instinto e pela elementar atividade de suas mentes, começaram a familiarizar-se com o uso de tudo o que formava o conjunto de suas necessidades. Para se entenderem, usaram das expressões fisionômicas, dos gestos e atitudes expressivas que revelavam os desejos de quem os executava. O primeiro e mais significativo gesto foi o de levar a mão à boca, em atitude de comer, para dar a entender que tinha fome, sinal que perdura ainda em nossos dias e é conhecido em todas as partes do mundo.

Disso se depreende que os homens primitivos, impedidos, pela própria incipiência intelectual, de usar da linguagem articulada, realizavam suas tarefas silenciosamente, e os mais habilidosos serviam de referência para os outros, que imitavam seus movimentos. Uma pedra de regular tamanho, por exemplo, lhes teria sugerido o pensamento de se sentarem em cima, atitude que sem dúvida foi logo adotada pelos que até então se sentavam no solo. O couro dos animais pode ter sugerido a eles a ideia de colocá-lo sobre a pedra, tornando-a menos dura e, mais tarde, amaciado pelo uso, os teria induzido a adotá-lo como abrigo.

O homem é um insigne imitador por natureza enquanto não se pronuncia nele a faculdade de criar

Aquele ofício mudo estimulou a necessidade de recorrer à mímica para resolver as situações prementes da vida primitiva, mas depois a inteligência humana substituiu pela comunicação verbal aquelas rudimentares formas de engenhosidade, e novos progressos se evidenciaram na vida dos homens.

A brincadeira infantil jogo da mímica teve sua origem naquelas remotas idades. Quando surgiu a necessidade de expressar com palavras os pensamentos e desejos, a pantomima passou à história como curiosidade. Entretanto, como a alma humana guarda de tudo alguma reminiscência, o jogo da mímica foi sendo praticado pelas crianças ao longo dos tempos, com grande entusiasmo. Consistia no seguinte: reunidas várias crianças, uma delas, escolhida por turno para exercer a mímica, começava a descrever – por meio de manifestações fisionômicas, gestos e atitudes – seu pensamento ou desejo. As demais crianças deviam inferir o significado dos movimentos que ela fazia. Assim, umas davam uma interpretação, e outras davam outra; mas, na maioria das vezes, coincidiam quando era clara a imagem apresentada.

As crianças, ao verem que era entendido com facilidade o que executavam, pensavam em reproduzir imagens mentais de coisas mais difíceis, a fim de que a expectativa fosse maior e ficasse mais trabalhoso acertar. Desse modo, e sem querer, adestravam suas mentes para inventar outras coisas.

Extraído de Coletânea da Revista Logosofia – Tomo 1, p.241-243

Coletânea da Revista Logosofia – Tomo I

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Carlos Bernardo González Pecotche, também conhecido pelo pseudônimo Raumsol, foi um pensador e humanista argentino, criador da Fundação Logosófica e da Logosofia, ciência por ela difundida. Nasceu em Buenos Aires, em 11 de agosto de 1901 e faleceu em 4 de abril de 1963. Autor de uma vasta bibliografia, pronunciou também inúmeras conferências e aulas. Demonstra sua técnica pedagógica excepcional por meio do método original da Logosofia, que ensina a desvendar os grandes enigmas da vida humana e universal. O legado de sua obra abre o caminho para uma nova cultura e o advento de uma nova civilização que ele denominou “civilização do espírito”.