Liberdade e livre-arbítrio

Esse é um tema que traz muita discussão, pois cada um tem um conceito sobre o que é a liberdade. 

De acordo com o dicionário, liberdade é o nível de total e legítima autonomia que representa o ideal maior de um cidadão, de um povo ou de um país. 

Não falemos do conceito que a maioria das pessoas tem sobre liberdade. Para elas, ser livre não é outra coisa além de fazer aquilo que mais apeteça a cada uma — se está bem ou mal feito, isso não é o que importa, nem tampouco é levado em conta quando lhes ocorre não fazer nada. 

A liberdade se diferencia do livre-arbítrio pelo fato de que, enquanto a primeira tem sua expressão no externo, o último tem origem no interno. Mas vamos continuar por enquanto no conceito de liberdade. 

Se para você o conceito de liberdade é o direito de ir e vir, como para mim já foi um dia, a pergunta que faço é: você é realmente livre?  

Em algum momento da minha vida, eu me deparei com a expressão “o pessimista é um otimista bem informado”. Por alguma razão da qual não lembro mais, essa expressão fez muito sentido. No começo, saía repetindo essa frase toda vez que acreditava fazer sentido em determinadas situações, mas com o tempo ela foi enraizando-se em minha mente, virou um conceito de vida e logo passei a ser uma pessoa pessimista, dizendo que as coisas não dariam certo já que, como achava que eu tinha suficiente informação, isso queria dizer que eu era “bem informado” e sabia como tudo terminaria.  

Essa verdade que criei para mim mesmo, sem recordar da razão pela qual resolvi interiorizá-la, durou anos em minha vida — recordo que muitas das decisões que tomei foram com base nessa “verdade”, a qual acreditei desde então. Desde viagens com amigos a acontecimentos no trabalho, esse pensamento pessimista estava sempre presente, praticamente guiando minha vida. 

Mas o que isso tem a ver com liberdade? Que, apesar de eu poder exercer meu direito de ir e vir, muitas das decisões que tomei durante um período da vida foram tomadas sem consciência; fui fazendo escolhas simplesmente pelo fato de acreditar que isso fosse real. Ora, mas se sou livre, onde estava essa liberdade de tomar decisões, de fazer coisas diferentes, de viver novas experiências? 

Se essas decisões tomadas basearam-se em um conceito distorcido do que é real, com certeza elas foram conduzidas pela falta de conhecimento. 

Quantas verdades como essa temos em nossas vidas? Quantos elementos e temores como esse nos foram apresentados ainda na infância e talvez continuem presentes e regendo muitas das decisões que tomamos? Toda vez que me deparo com algum conceito, nutrido há longo tempo, eu me pergunto: será que isso faz sentido? 

A liberdade sob a ótica logosófica está vinculada à liberdade de pensar, de ter consciência sobre nossos pensamentos, atos e decisões, e não presa a conceitos irreais.   

A liberdade é prerrogativa natural do ser humano, excedendo às demais espécies que povoam o mundo; o homem nasce livre, embora disso não se dê conta até o momento em que sua consciência o faz experimentar a necessidade de exercê-la como único meio de realizar as funções primordiais da vida e o objetivo que cada um deve atingir como ser racional e espiritual. 

O conhecimento é o grande agente equilibrador das ações humanas; em consequência, ao ampliar os domínios da consciência, torna o ser mais livre, ou seja, aumenta o direito de uma maior liberdade, mesmo quando condicionando esse direito às altas diretivas de seu pensamento. 

Neste momento, pergunto: você tem liberdade? 

É inegável que todo ser humano possui, por natureza, o privilégio do livre-arbítrio, mas, para exercê-lo, necessita de conhecimento, a fim de poder fazer uso da liberdade que ele lhe confere para seu bem e sem prejudicar a liberdade dos demais. 

No entanto, como saber se temos mesmo o livre-arbítrio se não existe conhecimento? Por exemplo, se preciso decidir entre ficar no mesmo emprego e morar fora do país, ou mudar de emprego para ficar no Brasil e próximo aos meus familiares e amigos, mas não tenho conhecimento suficiente sobre o novo país, cultura e costumes, ou sobre meu novo emprego, posso acabar tomando uma decisão com base em opiniões de outras pessoas — e não necessariamente com base no conhecimento sobre o assunto.  

Isso não quer dizer que não seja livre para escolher entre um caminho ou outro, porém nem sempre as escolhas da vida serão feitas 100% conscientes, já que, se não houver conhecimento, posso decidir através de pensamentos ou opiniões alheios. É um conceito que a Logosofia chama de Homem Massa, mas vamos deixar esse tema para outro momento. 

Gostaria de fazer uma pausa na leitura e sugerir essa reflexão: você toma decisões com base no conhecimento ou sempre pede a opinião das pessoas?

02:54 1124

O exemplo acima está ligado diretamente a algo externo, mas e quando a decisão se relaciona a algo interno? 

Vejamos agora o seguinte exemplo, há mais ou menos seis anos atrás, decidi que faria exercício pelo menos quatro vezes na semana, pois todos nós sabemos que, para se ter uma vida saudável, precisamos comer direito, dormir direito e praticar exercícios, certo? 

Porém, passados alguns meses, comecei a deixar tal decisão e propósito se diluírem, como se fossem perdendo força dentro do meu querer. De quatro vezes, passei para três, sem perceber, reduzi para duas vezes na semana, até que, por algum motivo de que não me recordo, parei de fazer exercícios. Esse processo todo deve ter durado uns três meses. 

Refletindo sobre esse caso, percebi que, por muitas vezes, deixei de cumprir com algo que era meu propósito, algo que tinha definido para mim mesmo, buscando meu bem- estar e saúde. 

Esse é um exemplo simples, mas poderia citar muitos outros, como começar uma dieta na segunda-feira e interrompê-la na quinta, praticar artes marciais e desistir antes de pegar a faixa preta, ou mesmo me matricular em um curso de espanhol e largar no meio. 

Por que isso acontece? Onde estava meu livre-arbítrio nessa hora? De fato, fui eu que decidi, por alguma razão, não cumprir com meu objetivo, mas de onde veio essa vontade que vai contra meu propósito? 

Nessa situação que vivi, não consegui exercer a liberdade de pensar, fui contra um propósito que eu mesmo tinha estabelecido, ou seja, o que houve foi praticamente uma auto-sabotagem. Isso já aconteceu com você? 

“Analisando-se o caso da indecisão, vê-se que muitas vezes ela procede de causas alheias à vontade do indivíduo. Este tem, por exemplo, a ideia de fazer algo, quer dizer, concebeu essa ideia; depois acaricia ou, melhor ainda, sente-se acariciado pela ilusão da ideia realizada; porém, eis então que, em vez de pôr mãos à obra, é tomado pelo temor de não saber concretizá-la na realidade e, ante a visão do fracasso, detém seus pensamentos e restringe sua vontade. Não obstante, a ideia está ali, em sua mente, acicatando-lhe o desejo até empurrá-lo à ação, a qual novamente é detida por outros pensamentos que lhe falam de sua incapacidade. 

Como se pode explicar, nessas condições, o exercício do livre-arbítrio? Em tal circunstância, o indivíduo é, por acaso, dono de sua vontade? 

A indecisão pode provir da abstenção na escolha entre duas ideias ou modos de proceder. Neste caso, que papel desempenharia a razão, se não é capaz de discernir qual delas é a mais conveniente? É evidente que a razão, para atuar, deve ter-se nutrido no conhecimento do que haverá de julgar. Sem ele, a razão se debilita e fica, portanto, inabilitada para exercer sua função discernidora. 

A situação exposta deve conduzir o pensamento à convicção de que a razão requer ser sustentada por amplos conhecimentos, enquanto a inteligência elabora, por sua parte, as ideias que em seguida haverá de submeter a seu juízo. 

Comumente se diz que alguém venceu a indecisão porque, em determinada circunstância, escolheu tal ou qual forma de proceder e levou a ideia à ação sem mais pensar. Este não é, porém, o caso que esclareceria a questão ou eliminaria a deficiência, porquanto a indecisão é considerada uma resistência íntima que se opõe à realização de um projeto concebido ou a uma determinação, o que, como fica demonstrado, não é assim, pois a bem da verdade não existe nenhuma resistência; só se trata de uma opção, para cujo uso se requer a convicção prévia da segurança que a ideia a escolher oferece. Em tal circunstância, deverá pronunciar-se a razão; se isto ocorrer, não haverá paralisação dos pensamentos, inibidos de atuar porque a vontade do ser não lhes deu vida nem ação.”

“Todo homem que nasce livre e concebe a liberdade como genuína expressão dos direitos humanos e como a mais alta expressão do conteúdo da própria vida, não pode aceitar que, enquanto seu corpo se move e anda livremente, sua razão e sua consciência permaneçam encarceradas ou, no melhor dos casos, gozem de uma liberdade condicional.”

Uma vez li em uma camiseta a seguinte frase: Você é aquilo que você come. Porém, eu prefiro a versão: Você é aquilo que acredita, que tem como conceitos e valores. 

A vida é construída através de escolhas que vamos tomando diariamente, e a consequência de tudo o que acontece nela são reflexos dessas decisões diárias. 

A pergunta que fica é: essas escolhas estão sendo feitas de forma consciente?

*Ensinamentos do livro Coletânea da Revista Logosófica – Tomo 2