De todos os que compram semanalmente bilhetes de loteria com a ilusão de ganhar um prêmio, pode-se dizer que cem por cento (e aqui nos referimos à gente medíocre, tanto a de escassos recursos como aquela que aparece mais bem vestida moral e fisicamente) só pensam – ou, dizendo melhor, sonham – com o maior deles: “a sorte grande”, como se diz vulgarmente. Essa cobiça, que se mostra sem dissimulação, é vigorosamente estimulada no homem por um único desejo: o de encher-se de luxo, para que parentes, amigos, companheiros de trabalho, vizinhos e todos os que o conhecem sintam inveja, ao vê-lo convertido num grande senhor.

Que satisfação diabólica não sentiria um simples empregado qualquer ao apresentar seu pedido de demissão ao chefe, enquanto lhe diria, reprimindo um tanto a emoção, mesclada com ares de triunfo: “Estou me demitindo porque já não preciso trabalhar; trabalhava só por distração.” Ou o fulano que passasse para amigos e parentes um cartão com seu novo endereço, para que se inteirassem de que ele mora pelo menos num palacete de algum bairro grã-fino. Ternos novos e às dúzias, carros, pompa a mais não poder – já que até o mais caro lhe parece excessivamente barato -, ei-lo então, o novo rico, que antes mandava reformar as roupas velhas e, muitas vezes, almoçava uma humilde xícara de café com leite.

Eis o afã de quase todos os pobres, ou dos que não têm uma situação econômica muito folgada: ser ricos, para encher-se de soberba e insensatez.

Observando uma enorme fila de pessoas que esperavam a vez para comprar um bilhete da loteria de Natal, que ali era vendido a preço de custo, refletimos:

Será que toda essa gente já pensou seriamente no que faria se a sorte fosse sua? Seguramente, não, pois, para aliviar sua situação econômica e, ainda, para melhorá-la notavelmente, o homem não necessita tirar “a sorte grande” e, não necessitando de tal coisa, deveria contentar-se com bilhetes que custam muito menos e cujos prêmios não são nada desprezíveis.

É que, para possuir de golpe grandes somas de dinheiro, é necessário ter suficiente ilustração para poder administrá-las. Quem nunca administrou dinheiro em abundância facilmente o malgasta, e muitos são os que devem, após desfrutar a “grandeza”, retornar à pobreza maldizendo sua sorte.

Para que se pede a Deus, por exemplo, que conceda a graça de tirar
“a sorte grande”, se isso só vai servir para se perder nas tentações e na libertinagem? Deve ser por isto que muito raramente Deus põe o prêmio maior nas mãos do néscio. Geralmente, esse prêmio sai repartido entre muitos e, quando sai inteiro, é um endinheirado que o leva, pois sabe como administrá-lo.

Se o pobre fosse mais sensato ao jogar na loteria e pensasse no futuro e bem-estar de sua família, na ajuda sem jactância que poderia dar ao próximo, com toda a segurança as bolinhas de sua sorte sairiam em lugar das que saem para decepcionar. Porém, uma das grandes debilidades humanas que mais custa ao homem eliminar é a vaidade. Ser tudo sem fazer nada, e ter muito para fazer menos ainda, eis a fórmula ideal da típica tendência humana.

Extraído de Coletânea da Revista Logosofia – Tomo 1, p.41

Coletânea da Revista Logosofia – Tomo I

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Carlos Bernardo González Pecotche, também conhecido pelo pseudônimo Raumsol, foi um pensador e humanista argentino, criador da Fundação Logosófica e da Logosofia, ciência por ela difundida. Nasceu em Buenos Aires, em 11 de agosto de 1901 e faleceu em 4 de abril de 1963. Autor de uma vasta bibliografia, pronunciou também inúmeras conferências e aulas. Demonstra sua técnica pedagógica excepcional por meio do método original da Logosofia, que ensina a desvendar os grandes enigmas da vida humana e universal. O legado de sua obra abre o caminho para uma nova cultura e o advento de uma nova civilização que ele denominou “civilização do espírito”.